terça-feira, 4 de julho de 2017

Refletindo sobre a comensalidade

O texto escrito pela autora convidada, Michele Valent, me trouxe vários pontos de reflexão, mas um deles permaneceu ecoando: a formação de uma rede de amigos a partir das atividades da Gastroterapia. E, pelo que conheço do trabalho da Michele, além do que li e vi nas fotos, essa formação antecede o 'comer juntos' e segue ocorrendo depois deste. Trata-se de um evento múltiplo, em que os comensais colhem juntos na horta do jardim-escola, cozinham juntos, partilham a refeição e, imagino eu, participam da limpeza e da organização do cenário, pois todos os movimentos associados ao comer são vivências em conjunto na Gastroterapia. E essa é uma das principais forças do processo. 

Um fenômeno que há muito tempo chama minha atenção é o da comensalidade, este "comer juntos". A partir da leitura do texto pude perceber o impacto, na formação da rede de amigos,  das outras atividades associadas ao comer. Trocar receitas seria uma expressão desse fenômeno, assim como o seria a troca de histórias pessoais associadas ao cozinhar e ao comer. 

Fui pesquisar as manifestações envolvidas nessas trocas, e há muito a conversar por aqui. Refleti, também, sobre a aproximação cronológica entre a leitura do que a autora escreveu e o curso de vinhos do Piemonte, ao que assisti na Vinho & Arte, na quinta-feira passada. Fiquei pensando em como ocorre a comensalidade em um curso de degustação de vinhos ou nos eventos de degustação, que alianças se formam entre os indivíduos, se é que alguma aliança é experimentada entre eles. Sou estrangeira nessas ocasiões, pois há pouco mais de um mês fui à minha primeira aula de Degustação de vinhos para iniciantes, na própria Vinho & Arte. Então, tudo para mim é bastante novo, inclusive as conversas com os participantes da mesa ao longo do curso ou do encontro. 

O que acontece em nosso padrão de aproximação com os demais, em circunstâncias assim? Eles não são nossos amigos, muitas vezes, mas compartilham conosco, durante um número de horas delimitado, experiências sensoriais únicas e raras a partir dos vinhos oferecidos. Referem as próprias impressões, os gostos, o prazer, a terminologia, as lembranças e associações a outros rótulos evocados. Compartilham, assim, a vivência dos  cinco sentidos, o que também pode conduzir à formação de amizades pelo 'sentir em comum'. Entretanto, este contato  do 'degustar juntos' os vinhos não parece levar à mesma intimidade propiciada pelo 'comer juntos'. Será? E quanto um curso nos propicia viajar por territórios  distantes, percorrer seus meandros, suas adegas, seus vinhedos e suas paisagens, como foi no curso de vinhos do Piemonte: podemos estabelecer a existência de uma comensalidade do viajante? Talvez uma sensação de desfrutar em conjunto de uma experiência imaginada a partir do relato de quem ministra. Um grupo que imagina sabores em seu coletivo estaria de certo modo exercendo a comensalidade? Todos nós, os que estávamos lá, ouvimos as mesmas informações, mas com certeza o colorido dado por um e por outro foi diferente, pelas bagagens de cada  indivíduo. 

Os vinhos degustados são os mesmos, mas a impressão é individual, o prazer pelo degustar é do próprio sujeito. Por isso, a essência do comensal é pessoal e coletiva, ao mesmo tempo. Saboreamos em conjunto, mas nossas percepções são só nossas. Se o comer juntos é um fenômeno desde sempre agregador, podemos pensar que o 'beber juntos' entra nessa mesma categoria? O que percebo é um enorme potencial para essa abertura, pela anima representada através do vinho. Me intriga pensar:  o comensal de um curso/encontro de vinhos é diferente do comensal de um evento gastronômico em que, muitas vezes, os participantes pouco se conhecem ou nunca se viram anteriormente? Qual o mecanismo agregador que une as pessoas ao redor da mesa, para uma refeição?

São devaneios a percorrer.

Essas e outras reflexões e leituras vêm vindo! Há artigos muito interessantes sobre essas temáticas, e mesmo sobre as comparações sobre as quais questiono neste post.
Obrigada pela visita!

Com alegria,
Betina


Fotos de cursos na Vinho & Arte






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