sábado, 8 de julho de 2017

Motivações da Oficina de Culinária Cultural do XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria


Escrevi o presente texto como território de reflexão sobre a "Oficina de Culinária Cultural" do XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria, atividade referida no post anterior. Na leitura, estão presentes as motivações que reuni para a elaboração da temática do módulo teórico, "A cozinha como expaço físico e simbólico":

O cozinhar nos fez humanos. Nossa relação com esse ato vai além do preparo do alimento no fogo, para ingestão. Esse é, sem dúvidas, o que mantém nossa sobrevivência biológica, mas há outra habilidade que aprendemos como espécie, graças também ao fogo: a interação com os demais.  A pesquisadora Eloisa Palafox refere que as capacidades de cozinhar  os alimentos e de contar histórias distinguem o homo sapiens, pois ambas compõem parte primordial da nossa evolução. A semelhança entre tais práticas está também no fato de que permitem a socialização dos indivíduos e a partilha da comida e das histórias.
Assim, como definem estudiosos, a cozinha é acima de tudo uma linguagem em que se expressa a cultura humana; de acordo com a escritora Rita Rutigliano, “desde sempre, os escritores utilizam a comida e o comer também para falar de outra coisa. As páginas dos livros, se sabe, portam um patrimônio de signos reveladores de vivências e de sentimentos humanos”. Outra contribuição relevante é da pesquisadora Silvana Ghiazza, quando refere que “o alimento enquanto signo significa, portanto, algo além de si mesmo, media conteúdos ligados ao universo cultural, revela conexões com a realidade histórico-social, com o conjunto profundo da identidade individual e coletiva; constitui, em suma, um polo de agregação de diversas dimensões de humanidade. (...) Pode-se falar em comida, ou através da comida.”
Cozinhar, comer alimentos cozidos que nos deem nutrição e sensações prazerosas e nos reunirmos com nossos semelhantes são atributos evolutivos que promoveram a chegada ao século XXI. Entretanto, nesta mesma chegada surge um paradoxo. Em tempos de alta relevância da gastronomia nos programas de televisão, periódicos, aplicativos tecnológicos e competições de repercussão mundial  entre chefs renomados ou iniciantes, nunca se cozinhou tão pouco em casa, de acordo com o escritor e pesquisador americano Michael Pollan. Damos destaque ao universo Gourmet como cenário muitas vezes glamourizado e vicejante em Estrelas Michelin, mas estaremos nos esquecendo da cozinha como espaço físico e simbólico em nossa evolução humana? Como iniciei o texto: “o cozinhar nos fez humanos”, mas estaremos, sobre-humanos, compondo um novo cozinhar, compatível com o mundo ultra-veloz?
Na contramão dessa perigosa tendência, o movimento Slow Food vem tomando cada vez mais espaço, para nossa sorte. A busca da desaceleração, da origem do que comemos, o valor das receitas transmitidas entre as gerações, o zelo com o alimento saudável, a homenagem aos produtos locais e da sazonalidade, o cozinhar e o comer em casa com a família: são alguns exemplos das mudanças na consciência atual. Neste caminho de passos mais lentos, é possível constatar também a reaproximação entre a cozinha e as Humanidades, em especial a História e a Literatura. Nas estantes das livrarias, no Brasil e no exterior, encontramos um número cada vez maior de livros que associam pratos a escritores e suas obras literárias, publicações de ensaios sobre cozinha e literatura, registros de história da alimentação em diversas épocas da História da Humanidade, memoirs de autores famosos e seus sabores favoritos. As madeleines de Proust atingiram posto de cânones desse aumento de leituras sobre a interface entre a cozinha e a Literatura, a História, a Filosofia, as Artes visuais. Congressos internacionais, cursos e simpósios na área da Gastronomia focam neste “novo” caminho de intersecção: trazer o cozinhar e o comer para perto dessas áreas.
Na minha leitura, o que está no subterrâneo dessa busca é a necessidade de devolver o cozinhar ao Humano mais profundo em nós, em expressões como arte, sentimentos, significados, linguagens, cultura; ao mesmo tempo, através do elo com nossas raízes, na relação com a natureza e com os antepassados. A reflexão de Michael Pollan em “Cozinhar-uma história natural da transformação” ilustra tal ideia:

“Mas talvez o que aprendi de mais importante tenha sido que cozinhar nos envolve em toda uma rede de relacionamentos sociais e ecológicos: com plantas e animais, com o solo, com os fazendeiros, com os micróbios dentro e fora dos nossos corpos, e, é claro, com  as pessoas que se nutrem e se deliciam com a nossa comida. Acima de tudo, o que descobri em frente ao fogão é que cozinhar faz com que estabeleçamos conexões.”
Michael Pollan

O objetivo do módulo teórico da Oficina de Culinária Cultural é apresentar a cozinha como modeladora de um conjunto de comportamentos e fenômenos ao longo da História da Humanidade. Chegamos aos nossos dias, no Terceiro Milênio, com muitas incertezas, paradoxos  e dilemas no campo da Gastronomia; a compreensão do binômio ‘cozinhar e comer’ no mundo contemporâneo, ligada às disciplinas humanísticas, nos propicia a reflexão sobre o alimento de forma profunda. Quanto mais olhamos para  o que cozinhamos e comemos, mais olhamos para nós mesmos, nos âmbitos individual e coletivo. Acima de tudo, o propósito da oficina, em sua íntegra teórico-prática, é o de proporcionar um espaço lúdico, dinâmico e informativo aos participantes.


Em breve, post sobre o módulo 2, prático, que será ministrado pelo Chef e proprietário do restaurante Valle Rústico, Rodrigo Bellora. 
Voltem sempre!
Com alegria,
Betina 

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