sexta-feira, 9 de junho de 2017

"Influência da gastronomia na felicidade conjugal", de Brillat-Savarin: do mercado à mesa, no século XXI

Cozinhar, ir à feira ou ao mercado local e explorar os produtos em seus detalhes, colocar a mesa: são vivências paralelas ao prazer da comida, oportunidades cotidianas que nos estimulam na expedição ao mundo dos  cinco sentidos e seus labirintos- o sabor, a emoção, a memória, o desejo. Participar destes "bastidores", prévios ao momento de satisfazer o apetite e  daquele partilhar as conversas com os demais, é viver  a refeição em sua plenitude. Para além do comer em si, é muito importante conhecermos os ingredientes e seus aromas, texturas, melodias; nos processos de preparar o alimento, nos tornamos parte de sua existência, chegamos ao outro pela receita que fazemos. Ao colocarmos os pratos e talheres na mesa, as taças e os guarnapos de pano, escutamos as vozes e os silêncios desses utensílios, sons que ecoam em nossas lembranças mais profundas. 

Quando fazemos essas práticas sozinhos, aprendemos mais de nós mesmos, aguçamos as percepções, visitamos nossos registros mais antigos. Quando fazemos com o par, estamos compartilhando um momento íntimo diverso do sexual, mas sem dúvida profundamente sensual: a comensalidade dos sentidos. Aquela que desperta o sentido genésico da atração entre os corpos, de acordo com Brillat-
Savarin, mas  que também  desperta a riqueza da vivência cotidiana: a observação, em par, das verduras no mercado, a escuta do refogado na panela, o tilintar dos cálices ao serem postos na mesa, a escolha dos queijos e dos fiambres para a tábua de inverno.

Preparar nossa especialidade, com os ingredientes que escolhemos pela manhã, montar a mesa para o amor e esperar sua chegada são também formas de dedicação, de entrega, prazerosas a quem realiza o agrado e a quem o recebe. 

Quando tivermos nos permitido percorrer juntos todo o caminho prévio, do mercado à mesa, teremos mais de nós mesmos para partilhar, e receberemos em reciprocidade. Isso pode ampliar o prazer da etapa seguinte, o comer e o beber. E, por supuesto, pode aumentar a atração entre o casal na intimidade física: entra em cena toda  a gama de expressões que os cinco sentidos atingem quando ativados pelo escolher ingredientes, preparar a comida, colocar a mesa, saborear os pratos, a sobremesa e o vinho, conversar sobre os mais variados temas. Os sentidos excitam-se por tantos entusiasmos, sobretudo quando a comida tiver propriedades afrodisíacas, mas a própria interação entre o casal, durante a comunhão do fazer e do saborear, é per se estimulante dos desejos. 

A seguir, o tempo de compartilhar a refeição: circunstância íntima, nos coloca em um espaço conjunto em que as horas, minutos e segundos têm outro ritmo em seus ponteiros. O degustar acorda outras sensações, devaneios e diálogos talvez até mundanos, mas que pertencem a ambos. A refeição nos coloca em sincronia com o nosso par, é a hora em que encenamos a peça no palco, roteiro de improviso.

Diz Brillat-Savarin em sua meditação intitulada "Influência da gastronomia na felicidade conjugal": "A gastronomia, enfim, quando partilhada, exerce a mais nítida influência sobre a felicidade que se pode encontrar na união conjugal. (...) Uma necessidade partilhada chama os esposos à mesa, uma inclinação comum aí os retém: ambos manifestam naturalmente aquelas pequenas cortesias que exprimem o desejo de agradar; e a maneira como transcorrem as refeições faz parte, para muitos, da felicidade da vida." 

E, falando sobre a rotina alimentar de dois casais muito diversos, refere:
"Seu irmão, ao contrário, é acolhido com o mais terno desvelo e as mais doces carícias quando chega a seu modesto alojamento. Senta-se junto a uma mesa frugal; mas a comida que lhe é servida poderia não ser excelente? Foi a própria Pamela que a preparou! Eles comem com delícia, conversando sobre seus problemas, seus projetos, seus amores. Uma meia garrafa de Madeira os ajuda a prolongar a refeição e a conversa; a seguir, o mesmo leito os recebe; e, após os transportes de um amor partilhado, um sono tranqüilo os fará esquecer o presente e sonhar com um futuro melhor".

Assim, a cozinha e a copa são cenários muito propícios para a experiência sensual do par, em todas as etapas que fizerem parte dessa partilha, em todos os formatos que a relação tiver. A força do elo está para além dos títulos: está, simplesmente, na comunhão, no afeto, no prazer, no toque da pele, nas conversas e nos silêncios em conjunto. 

Como vai ser o 'Dia do amor' com seu par?

Com carinho,
Betina













2 comentários:

Participe! Vou adorar compartilhar emoções culinárias com você! Com carinho, Betina