sábado, 22 de julho de 2017

Conheça o"Cucina in Prosa: escritas, tertúlias e práticas em Enogastronomia"


Um breve apanhado sobre a quinzena
Pois faz duas semanas desde a última escrita. Durante a quinzena, me dediquei a outra atividade que envolve o blog: o trabalho de campo. Sair da escrita e vivenciar práticas que promovam experiências sensoriais, afetivas e sociais também é essencial na continuidade do blog. Estive no Chá da tarde do Teatro São Pedro, dia 12 de julho, coordenado pela Chef Patissier Andréa Schein; dia 15 fui à Teutônia (RS), na edição Funghi Fest da Gastroterapia, prática gastronômica e integrativa da colega psiquiatra e gastrônoma Michele Valent e do Peter Krause; no dia 20, quinta-feira, fui ao curso e degustação de vinhos italianos, na Vinho & Arte, ministrado pelo Sommelier e Juiz de Vinhos Felipe Pastro Klein. 
Cada uma dessas atividades trouxe percepções, sabores, conhecimento e descobertas. E há muito o que escrever sobre tudo isso, ainda este mês. 
Durante o período, a dedicação  também se dirigiu à articulação da oficina de Culinária Cultural do XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria, junto ao chef e proprietário do restaurante Valle Rústico, Rodrigo Bellora, e sua equipe. Em breve, teremos aqui no blog a entrevista que fiz com o Rodrigo e algumas imagens de seu ofício no restaurante e em suas oficinas. 

As duas semanas tiveram um entusiasmo especial. Realizei a consolidação de um projeto que vinha organizando ao longo do primeiro semestre: um núcleo de atividades culturais em enogastronomia, com aulas, oficinas, práticas e experiências  já programadas, cujo foco é a intersecção do cozinhar, do comer e do beber  com as Humanidades. Trata-sede uma iniciativa itinerante, com sede em espaços de propósitos diversos. A primeira oficina já está pronta para ser colocada "no ar"; a segunda, a caminho. 

Cucina in Prosa
Escritas, tertúlias e práticas em Enogastronomia

Há tempos, a interface entre a Enograstronomia e as disciplinas como Literatura, História, Artes e Filosofia estão no meu horizonte de atenção. Existe tanto a ler, pesquisar, conversar e discutir, tanto a partilhar. Foi essa vontade que me fez dar partida ao "Cucina in Prosa". Serão atividades como oficinas de escrita em enogastronomia, grupos de estudo, práticas de degustação, tertúlias e oficinas de percepção sensorial. Como sentimos as percepções, pela ótica da neurogastronomia? Quais os elementos para começar o diário das sensações? Além desses propósitos, haverá atividades sobre temas em História da Alimentação e, sobretudo, grupos de leitura e conversas em Enogastronomia e Literatura. Quais as funções da comida e da bebida no texto literário? Qual a força da linguagem metafórica na leitura dos rótulos de vinho? O que é 'escrever de cozinha'? Que linguagem existe nas receitas culinárias, capaz de contextualizar um tempo, um espaço geográfico, um grupo de amigos ou familiares? Qual o papel da memória na vivência de uma refeição com pessoas queridas, de uma taça de vinho, de um prato de família sendo preparado? Qual a força da memória coletiva na preservação das receitas de família?

Há muito a conversar, a partilhar. 

A primeira atividade será o curso de escrita "Harmonizando sentidos: escritas possíveis em enogastronomia", que ministrarei na Vidal Mercearia, em Porto Alegre, em encontros mensais.  As aulas terão duração de três horas, acontecendo nas tardes de sábado das 14hs às 17hs
 nos dias 16/09, 28/10, 18/11 e 09/12. Os quatro encontros já estão programados, em seguida farei um post só para contar detalhes de cada um. 

A segunda atividade do semestre ainda está em finalização, mas já posso adiantar: será o ciclo de palestras "O sentimento do gosto: atributos humanos na comida e no vinho". Os encontros serão também mensais, de setembro a dezembro, mas independentes entre si, podendo o participante escolher acompanhar o ciclo ou apenas palestras específicas. O tema destas está relacionado ao foco desenvolvido nas aulas do curso de escrita. Assim, será possível - e proveitoso- acompanhar os dois tipos de prática. 

Para ambos, o número máximo será de 12 participantes. 

Vou postar aqui no blog, nos próximos dias, mas você poderá me enviar um e-mail se quiser saber mais do curso e do ciclo. Vai ser um prazer receber seu contato!

Gracias pela visita!!!
Em breve, postagens sobre meus passeios de campo e as atividades do Cucina in Prosa!

Com alegria,
Betina
Imagem do meu "Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras",
no dia do lançamento.
Fotografia: Évelyn Bisconsin





sábado, 8 de julho de 2017

Motivações da Oficina de Culinária Cultural do XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria


Escrevi o presente texto como território de reflexão sobre a "Oficina de Culinária Cultural" do XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria, atividade referida no post anterior. Na leitura, estão presentes as motivações que reuni para a elaboração da temática do módulo teórico, "A cozinha como expaço físico e simbólico":

O cozinhar nos fez humanos. Nossa relação com esse ato vai além do preparo do alimento no fogo, para ingestão. Esse é, sem dúvidas, o que mantém nossa sobrevivência biológica, mas há outra habilidade que aprendemos como espécie, graças também ao fogo: a interação com os demais.  A pesquisadora Eloisa Palafox refere que as capacidades de cozinhar  os alimentos e de contar histórias distinguem o homo sapiens, pois ambas compõem parte primordial da nossa evolução. A semelhança entre tais práticas está também no fato de que permitem a socialização dos indivíduos e a partilha da comida e das histórias.
Assim, como definem estudiosos, a cozinha é acima de tudo uma linguagem em que se expressa a cultura humana; de acordo com a escritora Rita Rutigliano, “desde sempre, os escritores utilizam a comida e o comer também para falar de outra coisa. As páginas dos livros, se sabe, portam um patrimônio de signos reveladores de vivências e de sentimentos humanos”. Outra contribuição relevante é da pesquisadora Silvana Ghiazza, quando refere que “o alimento enquanto signo significa, portanto, algo além de si mesmo, media conteúdos ligados ao universo cultural, revela conexões com a realidade histórico-social, com o conjunto profundo da identidade individual e coletiva; constitui, em suma, um polo de agregação de diversas dimensões de humanidade. (...) Pode-se falar em comida, ou através da comida.”
Cozinhar, comer alimentos cozidos que nos deem nutrição e sensações prazerosas e nos reunirmos com nossos semelhantes são atributos evolutivos que promoveram a chegada ao século XXI. Entretanto, nesta mesma chegada surge um paradoxo. Em tempos de alta relevância da gastronomia nos programas de televisão, periódicos, aplicativos tecnológicos e competições de repercussão mundial  entre chefs renomados ou iniciantes, nunca se cozinhou tão pouco em casa, de acordo com o escritor e pesquisador americano Michael Pollan. Damos destaque ao universo Gourmet como cenário muitas vezes glamourizado e vicejante em Estrelas Michelin, mas estaremos nos esquecendo da cozinha como espaço físico e simbólico em nossa evolução humana? Como iniciei o texto: “o cozinhar nos fez humanos”, mas estaremos, sobre-humanos, compondo um novo cozinhar, compatível com o mundo ultra-veloz?
Na contramão dessa perigosa tendência, o movimento Slow Food vem tomando cada vez mais espaço, para nossa sorte. A busca da desaceleração, da origem do que comemos, o valor das receitas transmitidas entre as gerações, o zelo com o alimento saudável, a homenagem aos produtos locais e da sazonalidade, o cozinhar e o comer em casa com a família: são alguns exemplos das mudanças na consciência atual. Neste caminho de passos mais lentos, é possível constatar também a reaproximação entre a cozinha e as Humanidades, em especial a História e a Literatura. Nas estantes das livrarias, no Brasil e no exterior, encontramos um número cada vez maior de livros que associam pratos a escritores e suas obras literárias, publicações de ensaios sobre cozinha e literatura, registros de história da alimentação em diversas épocas da História da Humanidade, memoirs de autores famosos e seus sabores favoritos. As madeleines de Proust atingiram posto de cânones desse aumento de leituras sobre a interface entre a cozinha e a Literatura, a História, a Filosofia, as Artes visuais. Congressos internacionais, cursos e simpósios na área da Gastronomia focam neste “novo” caminho de intersecção: trazer o cozinhar e o comer para perto dessas áreas.
Na minha leitura, o que está no subterrâneo dessa busca é a necessidade de devolver o cozinhar ao Humano mais profundo em nós, em expressões como arte, sentimentos, significados, linguagens, cultura; ao mesmo tempo, através do elo com nossas raízes, na relação com a natureza e com os antepassados. A reflexão de Michael Pollan em “Cozinhar-uma história natural da transformação” ilustra tal ideia:

“Mas talvez o que aprendi de mais importante tenha sido que cozinhar nos envolve em toda uma rede de relacionamentos sociais e ecológicos: com plantas e animais, com o solo, com os fazendeiros, com os micróbios dentro e fora dos nossos corpos, e, é claro, com  as pessoas que se nutrem e se deliciam com a nossa comida. Acima de tudo, o que descobri em frente ao fogão é que cozinhar faz com que estabeleçamos conexões.”
Michael Pollan

O objetivo do módulo teórico da Oficina de Culinária Cultural é apresentar a cozinha como modeladora de um conjunto de comportamentos e fenômenos ao longo da História da Humanidade. Chegamos aos nossos dias, no Terceiro Milênio, com muitas incertezas, paradoxos  e dilemas no campo da Gastronomia; a compreensão do binômio ‘cozinhar e comer’ no mundo contemporâneo, ligada às disciplinas humanísticas, nos propicia a reflexão sobre o alimento de forma profunda. Quanto mais olhamos para  o que cozinhamos e comemos, mais olhamos para nós mesmos, nos âmbitos individual e coletivo. Acima de tudo, o propósito da oficina, em sua íntegra teórico-prática, é o de proporcionar um espaço lúdico, dinâmico e informativo aos participantes.


Em breve, post sobre o módulo 2, prático, que será ministrado pelo Chef e proprietário do restaurante Valle Rústico, Rodrigo Bellora. 
Voltem sempre!
Com alegria,
Betina 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Oficina de Culinária Cultural no XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria

Pois a comensalidade é um dos temas da atividade "Oficina de Culinária Cultural", que o Chef e proprietário do Restaurante Valle Rústico, Rodrigo Bellora, e eu, Betina, ministraremos nos XIII Congresso Gaúcho de  Psiquiatria, em Bento Gonçalves. O Congresso vai ocorrer de 16 a 20 de agosto, e  nossa realização conjunta será no próprio Valle Rústico, no dia 18 de agosto, sexta-feira, das 14:00 às 16:00.  

Minha participação, o Módulo 1, será a parte teórica, resultado das pesquisas, reflexões e leituras que venho fazendo há tempos nos campos das interações da Gastronomia com as Humanidades. 
"A cozinha como espaço físico e simbólico" é o título que abrange  temáticas como "origens do cozinhar: o domínio do fogo", "nutrir e agregar: a comida no centro do convívio" e o último tópico, "E o que nos conta a cozinha do século XXI?". Três assuntos, uma hora de conversa, tantos caminhos. No eixo do trajeto a percorrer, estão a Cozinha e as Humanidades, entrelaçadas. História da Alimentação, Antropologia, Literatura, Filosofia, Artes, todas reunidas para a compreensão da cozinha e do comer, ao longo da  nossa evolução; principalmente nos Estados Unidos e na Europa, tais interações vêm sendo foco de congressos e de inúmeras publicações, em escala cada vez maior, sob o nome de "Food Studies", os 'Estudos sobre a comida'. O motivo de estes temas serem abordados em uma atividade do Congresso Gaúcho de Psiquiatria? A cozinha como um dos possíveis modos de olhar para o Humano em nós, neste aspecto tão inerente à nossa sobrevivência e ao universo de prazer que a comida representa. 

A comensalidade é um exemplo relevante neste sentido: o comportamento de partilhar a mesa é ancestral, e, em sua origem, está o domínio do fogo; ao redor deste, ocorria a partilha do calor e do alimento. Assim, o 'comer juntos' corresponde a um ritual decisivo, a integração dos seres humanos para sobreviver através do fogo e da comida cozida, junto aos demais. Essa é nossa origem, como homo sapiens

No polo oposto, o mundo contemporâneo, está o Boom da Gastronomia mundial nas telas de televisão, computador e smartphones, 'seres' que fazem companhia aos indivíduos que, cada vez mais, têm suas refeições sozinhos e fora de casa, na jornada de trabalho. Ainda bem, o Slow Food espalhou-se pelo mundo, para transformar esse paradigma. Iniciativas como a Gastroterapia, da Michele Valent, em Teutônia, e como o Valle Rústico, do Rodrigo Bellora, em Bento, são células preciosas dessa mudança. No propósito de perceber a evolução da cultura gastronômica como expressão do Humano, e de refletir sobre os comportamentos ligados ao cozinhar e ao comer, surgem oportunidades de  encontros reais com a cozinha, com o alimento, com os comensais, com o afeto e os sabores. Esses são o motivo de atividades como esta oficina: divertir, ensinar e, acima de tudo, integrar os participantes. 

A participação do Chef Rodrigo Bellora ocorrerá no Módulo 2, para a prática culinária: ele fará um 'bate-papo' sobre  o movimento Slow Food, a interação que desenvolve com os pequenos produtores da região, na Gastronomia de seu restaurante Valle Rústico, e realizará uma de suas especialidades, com degustação para os participantes. 

No link, as informações sobre inscrição na oficina, que tem vagas limitadas! 

Aos colegas que estarão no Congresso Gaúcho: vai ser um prazer partilhar essa experiência com vocês!!!!

Amanhã tem mais sobre as motivações para a oficina! 
Acompanhem aqui no Blog!

Com alegria,
Betina
Imagem cedida pelo Restaurante Valle Rústico
 para a oficina de Culinária Cultural
do XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria

terça-feira, 4 de julho de 2017

Refletindo sobre a comensalidade

O texto escrito pela autora convidada, Michele Valent, me trouxe vários pontos de reflexão, mas um deles permaneceu ecoando: a formação de uma rede de amigos a partir das atividades da Gastroterapia. E, pelo que conheço do trabalho da Michele, além do que li e vi nas fotos, essa formação antecede o 'comer juntos' e segue ocorrendo depois deste. Trata-se de um evento múltiplo, em que os comensais colhem juntos na horta do jardim-escola, cozinham juntos, partilham a refeição e, imagino eu, participam da limpeza e da organização do cenário, pois todos os movimentos associados ao comer são vivências em conjunto na Gastroterapia. E essa é uma das principais forças do processo. 

Um fenômeno que há muito tempo chama minha atenção é o da comensalidade, este "comer juntos". A partir da leitura do texto pude perceber o impacto, na formação da rede de amigos,  das outras atividades associadas ao comer. Trocar receitas seria uma expressão desse fenômeno, assim como o seria a troca de histórias pessoais associadas ao cozinhar e ao comer. 

Fui pesquisar as manifestações envolvidas nessas trocas, e há muito a conversar por aqui. Refleti, também, sobre a aproximação cronológica entre a leitura do que a autora escreveu e o curso de vinhos do Piemonte, ao que assisti na Vinho & Arte, na quinta-feira passada. Fiquei pensando em como ocorre a comensalidade em um curso de degustação de vinhos ou nos eventos de degustação, que alianças se formam entre os indivíduos, se é que alguma aliança é experimentada entre eles. Sou estrangeira nessas ocasiões, pois há pouco mais de um mês fui à minha primeira aula de Degustação de vinhos para iniciantes, na própria Vinho & Arte. Então, tudo para mim é bastante novo, inclusive as conversas com os participantes da mesa ao longo do curso ou do encontro. 

O que acontece em nosso padrão de aproximação com os demais, em circunstâncias assim? Eles não são nossos amigos, muitas vezes, mas compartilham conosco, durante um número de horas delimitado, experiências sensoriais únicas e raras a partir dos vinhos oferecidos. Referem as próprias impressões, os gostos, o prazer, a terminologia, as lembranças e associações a outros rótulos evocados. Compartilham, assim, a vivência dos  cinco sentidos, o que também pode conduzir à formação de amizades pelo 'sentir em comum'. Entretanto, este contato  do 'degustar juntos' os vinhos não parece levar à mesma intimidade propiciada pelo 'comer juntos'. Será? E quanto um curso nos propicia viajar por territórios  distantes, percorrer seus meandros, suas adegas, seus vinhedos e suas paisagens, como foi no curso de vinhos do Piemonte: podemos estabelecer a existência de uma comensalidade do viajante? Talvez uma sensação de desfrutar em conjunto de uma experiência imaginada a partir do relato de quem ministra. Um grupo que imagina sabores em seu coletivo estaria de certo modo exercendo a comensalidade? Todos nós, os que estávamos lá, ouvimos as mesmas informações, mas com certeza o colorido dado por um e por outro foi diferente, pelas bagagens de cada  indivíduo. 

Os vinhos degustados são os mesmos, mas a impressão é individual, o prazer pelo degustar é do próprio sujeito. Por isso, a essência do comensal é pessoal e coletiva, ao mesmo tempo. Saboreamos em conjunto, mas nossas percepções são só nossas. Se o comer juntos é um fenômeno desde sempre agregador, podemos pensar que o 'beber juntos' entra nessa mesma categoria? O que percebo é um enorme potencial para essa abertura, pela anima representada através do vinho. Me intriga pensar:  o comensal de um curso/encontro de vinhos é diferente do comensal de um evento gastronômico em que, muitas vezes, os participantes pouco se conhecem ou nunca se viram anteriormente? Qual o mecanismo agregador que une as pessoas ao redor da mesa, para uma refeição?

São devaneios a percorrer.

Essas e outras reflexões e leituras vêm vindo! Há artigos muito interessantes sobre essas temáticas, e mesmo sobre as comparações sobre as quais questiono neste post.
Obrigada pela visita!

Com alegria,
Betina


Fotos de cursos na Vinho & Arte






sábado, 1 de julho de 2017

Texto da nossa autora convidada: Michele Valent

Gastroterapia e Hygge

Michele Valent*

Até bem pouco tempo atrás, os objetivos da psiquiatria clínica estiveram, em geral, restritos à redução do sintoma e à prevenção da recaída, mas, para a definição de saúde da OMS e dentro do modelo compreensivo do bem-estar (Sirgy, 2012), a satisfação das necessidades básicas para a sobrevivência e o balanço positivo entre afetos agradáveis e desagradáveis não bastam: é preciso eudaimonia, ou seja, um propósito na vida, o exercício do prazer.
A chamada psiquiatria positiva (Jeste, 2015) procura entender e promover o bem-estar por meio de intervenções que envolvam características psicossociais positivas tanto em populações clínicas como não-clínicas. Tais intervenções, focadas no desenvolvimento do otimismo, da resiliência psíquica e da vida social, podem complementar a medicação ou a psicoterapia, são convenientes, custo-efetivas e menos associadas ao histórico estigma que pesa sobre a psiquiatria. Nessa linha teórica inscrevemos a Gastroterapia.
A Gastroterapia, intervenção psicossocial criada por nós e praticada em nosso jardim-escola, em Teutônia, a 110Km de Porto Alegre, é uma combinação de agricultura urbana, estudo e divulgação de espécies nativas, criação e execução de refeições temáticas e integração da gastronomia com as demais manifestações artísticas. No decorrer de três ou cinco horas, os comensais colhem, preparam e desfrutam de uma refeição, em meio a discussões prolíficas e uma ampla troca de experiências. A atividade tem como fim último o estabelecimento e o fortalecimento de relações sociais, já que a força de nossos vínculos com outras pessoas é o mais forte dentre todos os preditores de felicidade (Wiking, 2016).
A mesa tem a função primordial simbólica de “távola fraterna”, de lugar de trocas e nivelamento. A comensalidade, a partilha da refeição, é tida como o ato fundador da civilização (Montanari, 2007). O alimento é o principal fator de definição da identidade humana, pois o que comemos é sempre um produto cultural e, portanto, o recurso ideal para uma educação articulada, complexa e criativa, dando valor à interdependência e aos bens comuns (Petrini, 2016). A lentidão na fruição do alimento é condição sine qua non para a saúde mental das pessoas: “Nosso século, que começou e está se desenvolvendo sob o signo da civilização industrial, primeiro inventou a máquina e depois o tomou como seu modelo de vida. ‘Somos hoje escravos da velocidade, e sucumbimos todos ao mesmo vírus insidioso: a Vida Fast (ou seja, a vida acelerada), que destrói nossos hábitos, invade a privacidade de nossos lares, e nos força a nos alimentarmos dos fast-food. Que doses adequadas de prazer sensual garantido e o desfrute lento, a longo prazo, nos preservem do contágio das multidões que tomam o frenesi por eficiência” (Petrini, 1986).
Ainda para Petrini e todos os afiliados (como nós) ao movimento mundial Slow Food, a Gastronomia deve ser libertada de sua função elitista e espetacular, do fenômeno midiático-pornográfico a que foi reduzida: fanatismo nas pontuações para restaurantes e vinhos,  restaurantes convertidos em locais de culto à personalidade do chef, receita sempre perfeita, fotografável, de matéria-prima caríssima, crítica gastronômica sujeita à lógica do mercado, espetacularização forçada do alimento, competições entre cozinheiros que são corridas contra o tempo e construção de uma imago do restaurante como uma gaiola de loucos, onde o chef alterna aspereza e sedução, a matéria-prima é indiferente e os produtores são exibidos como animais de zoológico.
Tudo isso temos em mente ao conduzir a Gastroterapia: o exercício do hedonismo saudável e terapêutico, em que o comer e o alimento servem como veículos para a discussão de questões afetivas, ecológicas, artísticas e filosóficas e para a vivência do prazer que traz saúde ao corpo e tranquilidade ao espírito. Dentro da mesma lógica, adotamos os preceitos do Hygge em todos os nossos encontros.
Com um clima que obriga ao confinamento indoors durante metade do ano e uma das maiores cargas de impostos do mundo, a Dinamarca é considerada também um dos países mais felizes. Os dinamarqueses, segundo a European Social Survey, são os europeus que veem amigos e parentes com a maior frequência e que relatam a maior quantidade de sentimentos de calma e paz. O Happiness Research Institute, baseado em Copenhagen, atribui esses achados às vastas proteções sociais oferecidas – comuns aos demais países escandinavos, mas também a uma estratégia de sobrevivência própria dos dinamarqueses: o Hygge.
Embora a definição varie muito, entende-se o Hygge como um recorte temporal de relaxamento, descontração e aconchego, sozinho ou na companhia de alguns (poucos) seres amados; a arte de expandir a outras pessoas a própria zona de intimidade; um sentimento de lar, de segurança, de proteção ante às agruras mundanas; uma maneira de planejar e preservar a felicidade; algo que não se soletra: se vive.
Recentemente apresentado na mídia brasileira de grande circulação como “tendência na decoração de interiores”, o hygge não se restringe à escolha de móveis ou objetos para a composição de um ambiente. Na verdade, o hygge vai na contramão do consumo: há nele uma forte orientação e compromisso em saborear o presente, lembrar das coisas que costumamos desprezar como certas, dar um passo para trás e apreciar seu valor. O Hygge é humilde – escolhe o rústico no lugar do novo, o simples no lugar do trendy, a ambiência no lugar da excitação. Trata-se de apreciar os prazeres simples da vida que, na verdade, são de graça ou quase.
Hygge também nos lembra da diversão. O que aconteceu com ela? ficamos focados demais nos resultados de uma atividade. Trabalhamos para ganhar dinheiro; vamos à academia para perder peso. Nos matriculamos (e aos nossos pequenos) em cursos para construir currículo, passamos tempo com as pessoas para fazer networking.
Na Gastroterapia, levamos muito a sério e procuramos praticar todos os preceitos do Manifesto Hygge (adaptado de Wiking, 2016):

Atmosfera: buscamos a luz mais quente e aconchegante, meia-luz ou luz de velas, ou, melhor ainda, a luz do fogo.
Presença: estamos focados no presente; desligamos o celular.
Prazer: café, chá, doces, carnes, vegetais frescos e orgânicos. A comida hyggeligt é uma indulgência, uma pausa nas exigências rígidas da alimentação saudável. Pequemos juntos.
Conforto: fazemos uma pausa, ficamos à vontade. O dress code é casual e despretensioso.
Gratidão: melhor impossível – fazemos um esforço consciente para aproveitar e ser gratos pela comida, bebida e companhia.
Igualdade: “nós” acima do “eu”. Dividimos com equidade as tarefas, que se convertem em prazer. Homens e mulheres, adultos e crianças, experientes e iniciantes: a cozinha é para todos.
Harmonia: não competimos nem corremos contra o tempo; nossa cozinha não é um show de televisão. Somos amados e aprovados, não há razão para exibir conquistas; a vaidade é uma forma sub-reptícia de divisão. Ninguém fica no centro do palco ou monopoliza a palavra.
Trégua: deixamos o drama na porta; por ora, não discutimos assuntos polêmicos, mágoas de família nem perdemos tempo com reclamações excessivas.
Convivência: construímos memórias e evocamos a nostalgia dos momentos felizes já vividos em conjunto.
Proteção: esta é a nossa tribo, nosso lugar de paz e segurança.
  
Para participar de uma atividade da Gastroterapia, basta curtir nosso perfil no Facebook (https://www.facebook.com/gastroterapiateutonia) e fazer contato conosco via mensagem inbox. Nossa programação de eventos também consta do site http://ilgiardin.com.br/ por onde é possível inscrever-se. Como próximos encontros, teremos a “Funghi Fest: um menu alucinante” do dia 15/07, a partir das 11h, em que discutiremos o hygge enquanto elaboramos todo um menu a base de cogumelos localmente produzidos e uma edição especial de férias direcionada ao público infanto-juvenil, “Brincando com Fogo”, no dia 22/07, em que falaremos de aprendizagem na infância e assaremos todo o menu em fogueira ao ar livre.

A atividade começa pelo jardim
A "moral da história" da Gastroterapia

O estudo e a difusão das plantas nativas
 é sempre parte integrante da atividade

O objetivo final é a formação de uma comunidade de amigos

Jantar Hygge na Gastroterapia
Os anfitriões da Gastroterapia

*Médica psiquiatra especialista em saúde mental do trabalhador e gastrônoma formada pelo ICIF UCS

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Pinceladas sobre o curso de vinhos do Piemonte

A jornalista e Sommeliére
Silvia Mascella Rosa,
na aula de ontem.
Enquanto preparo o post sobre o curso de vinhos do Piemonte, ministrado ontem pela Sommeliére Silvia Mascella Rosa na Vinho & Arte, vou relembrando de alguns pontos por aqui. Além de ser cenário dos vinhos Barolo e Barbaresco, também é a terra da Nutella, da Gianduia, do Eataly, do Vermute. E do Slow Food! Em 1986, na cidade piemontesa de Bra, Carlo Petrini  criou este movimento que, nos últimos 30 anos, vem se espalhando pelo mundo.

Há muitas coisas a contar sobre o que aprendi ontem. E confesso, recém estou começando  a falar as primeiras palavras desse idioma que é o vinho; como no aprendizado de uma nova língua, o início é lento, as palavras e percepções passam a ter sentido em conjunto apenas com a prática e o estudo. É incrível mesmo como, pouco a pouco, vou descobrindo este e aquele detalhe, percebendo nuances que antes desconhecia, sentindo curiosidade por participar de outros cursos e por aprender mais, por absorver a cultura do novo 'idioma'. E este é o ponto, para mim, além do prazer de um cálice de vinho: adentrar a cultura de que ele é parte, ouvir suas histórias e abrir janelas da imaginação para as paisagens do território.

 A aula de ontem foi especial em todos esses elementos: Silvia falou com dinamismo e alegria sobre os vinhos, mas transitou por outros campos piemonteses, a comida, as tradições, os aspectos históricos. Em alguns momentos, atravessava a sala, percorrendo o trajeto entre a apresentação de fotos em Data Show, de um lado, e os mapas, do outro. Trajetos dentro da Vinho & Arte, sim, mas especialmente percorridos, em primeiro lugar, dentro de si mesma, em seu conhecimento e lembranças vivenciadas e aprendidas pelas experiências de degustação no Piemonte. Com tal fluência e vivacidade que nos levou junto em seus relatos; fez com que os participantes, que lotaram as vagas, viajassem com ela pelos vinhedos, estradas, adegas, castelos e imagens de névoa e de sonho.

Em breve, post com mais detalhes e fotos. 
Amanhã, a postagem será da nossa autora convidada, a médica psiquiatra, chef e proprietária da Gastroterapia Michele Valent. 

Aguardem!!! Ontem li o texto da Michele, vi as fotos da Gastroterapia, e amei! 
Mais não conto, para deixar que fiquem curiosos! 

Com alegria,
Betina

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Aperitivo: algumas curiosidades sobre a cozinha do Piemonte


Fui pesquisar, depois de tanto tempo, a cozinha do Piemonte. E encontrei sites muito interessantes, um dos quais tem como foco buscar ingredientes e receitas históricos e trazê-los ao nosso tempo. A típica cozinha piemontesa pode ser dividida em duas categorias: a de receitas originadas da tradição nobre da Corte de Savoia, de um lado, e aquela das nascidas das tradições camponesas. No primeiro grupo, estão os pratos muito ricos, que eram servidos nos banquetes suntuosos da Corte. Dos camponeses, vinham as receitas realizadas com ingredientes simples, a exemplo da 'Bagna Caoda'. As duas essências do território, a rica, da corte de Savoia, e a pobre, do campo, contribuíram para a grande variedade de sua culinária. As receitas dessa região caracterizam-se sobretudo por seus sabores fortes, que bem são harmonizados com os vinhos do Piemonte. Sobre esses vinhos, aprenderei amanhã, no curso da Vinho & Arte a ser ministrado pela jornalista e Sommeliére Silvia Mascella Rosa. 

Se adentrarmos os tratados de cozinha piemontesa, vamos encontrar velhos conhecidos, como os 'Grissini', por exemplo, além de uma variedade de mais de 60 queijos, entre os frescos e os curados. O Gorgonzola, apesar de ser originário da Lombardia, tem no Piemonte, também, a outra das duas regiões definidas na "Denominação de Origem Protegida" pela legislação ("Consorzio"). No Piemonte, se destaca  como zona produtora  a cidade de Novara, mas outras também estão incluídas. As origens desse queijo podem ser conhecidas aquiO 'Tartufo bianco', os risottos e os doces como o 'Zabaione' e o 'Gianduia' também são parte desse conjunto de receitas e produtos típicos piemonteses. 

E há um grupo de receitas ao qual nunca resisto: os 'antipasti', quitutes e aperitivos que adoro preparar e descobrir. Na tradição do Piemonte, os 'antipasti piemontesi' ocupam lugar de protagonistas, relevância talvez herdada dos banquetes da corte de Savoia. 

Sigo pesquisando...Por enquanto, o deleite fica  neste site, fonte para a escrita do post de hoje.

Amanhã, o curso de vinhos do Piemonte, da Vinho e Arte, com referências sobre a gastronomia e a cultura da região. Imperdível! 

Com carinho,
Betina

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Curso de Vinhos do Piemonte, na Vinho & Arte, com a sommeliére Silvia Mascella Rosa

Piemonte!
Fonte: divulgação Vinho & Arte
Bastou receber o contato da enóloga Maria Amélia Duarte Flores, hoje em torno do meio-dia, para ficar curiosa por reler materiais sobre a gastronomia do Piemonte.  Pesquisei  sobre seus pratos e produtos típicos em junho de 2012, época em que li sobre a "Bagna Caoda", espécie de fondue de anchovas, alho, azeite de oliva e manteiga, típica receita ancestral desta região do norte da Itália. Sobre os vinhos piemonteses, naquele período, li o suficiente para ter noções, mas ficou a vontade de um dia conhecer mais a respeito. Parece que este dia chegou!

Pois bem, o motivo do contato da Maria Amélia foi avisar do curso de vinhos do Piemonte, que acontecerá na Vinho & Arte nesta quinta-feira, 29 de junho de 2017. Lendo  sobre a programação do curso e a respeito de quem o ministrará, não tive dúvidas de que vai ser um aprendizado inesquecível. A bagagem e a expertise da ministrante, a força anímica do território e os vinhos a serem degustados são elementos que aguçam nossa imaginação. 
Abaixo, segue o post sobre o evento. A seguir, em próximas postagens ao longo da semana, o 'aperitivo' sobre os produtos e ingredientes piemonteses e suas tradições. Dos vinhos, provoco a curiosidade dos leitores com o texto da própria Sílvia Mascella Rosa, que terá muito a contar na quinta-feira!   

"Piemonte, Barolo e Barbaresco
Os vinhos dos reis!
Beviamo il Piemonte (brindemos o Piemonte)”

"Durante três anos em sequência viajei ao Piemonte como jornalista/degustadora para um evento chamado ‘Nebbiolo Prima’ - uma semana de degustações de manhã, tarde e noite. Impossível ter a soma exata dos vinhos, mas pelas minhas anotações devem ter sido aproximadamente 600 amostras de Nebbiolo (Barolo, Barbaresco e Roero) durante essas viagens. Isso fora os Barberas, Moscatos e Arneis que entremearam as refeições e visitas.

Assim, vou contar para vocês o que é o sabor do Piemonte, seu povo, sua gastronomia, seus castelos, tradições e paisagens e, é claro, como é a uva Nebbiolo e porque esses vinhos estão entre o
s mais especiais do mundo.

Venha degustar conosco!

Eu sou Silvia Mascella Rosa, sommeliére, bartender e jornalista e estarei com vocês na Vinho & Arte, com minha amiga Maria Amélia, no dia 29 de junho de 2017."

Curso e Degustação Premium - Vinhos do Piemonte
Uvas, DOC, DOCG e muitas curiosidades
Arneis, Dolcetto, Barolo, Barbaresco, Nebbiolo e Langhe.
Destaque para "Sito Moresco", de Angelo Gaja e uma seleção de raridades, algumas não disponíveis no mercado.

Data: 29 de junho, quinta-feira, 19h30 às 22h
Local: Vinho e Arte no Plaza São Rafael (Av Alberto Bins, 514 - Centro Histórico - Porto Alegre)
Valor: R$ 150,00
Incluso curso e certificado, tábuas de frios ao estilo italiano e seis vinhos ícones.


Reservas e informações:
51 99999 3168 - 3023 3345"

Participem vocês também!
Com carinho,
Betina
Edição da 'El Gourmet' sobre a Bagna Caoda, receita ancestral
que celebra as colheitas e a comensalidade
Posts do Serendipity in Cucina sobre a 'Bagna Caoda' e o Piemonte, de junho de 2012:

As novas colunas no Blog: Entrevistas e Autores convidados

A semana que encerra o mês de junho será de prazerosas novidades: primeiras pinceladas sobre as novas colunas no blog, leituras, eventos e links que andei curiosando, e por aí vai.

Bom, começo contando das colunas. A partir de julho, abrirei as portas do blog para receber especialistas em Gastronomia e em enologia,  entre chefs, escritores, enólogos e personagens do mundo do vinho, proprietários de restaurantes e outros protagonistas do universo da cozinha e da adega. Serão dois posts mensais em espaços diversos: um trará o texto integral do autor convidado; o outro será destinado a entrevistas que farei com estes profissionais. De Porto Alegre ou do interior do RS, de outros estados brasileiros ou do exterior, será sempre uma honra e um prazer para o 'Serendipity in Cucina' a oportunidade de fazer essas partilhas. 

Em julho, o entrevistado será  Rodrigo Bellora, Chef e proprietário do restaurante Valle Rústico, no Vale dos Vinhedos, que também conta com o espaço 'escola', onde ministra oficinas gastronômicas; a autora convidada será Michele Valent, médica psiquiatra, Chef e proprietária da Gastroterapia, escola de gastronomia  ( e de bem-viver! ) com sede em Teutônia, também no interior do Rio Grande do Sul. 

Na entrevista e no texto, respectivamente, Rodrigo e Michele contarão de seu ofício na gastronomia, mas, para além disso, o leitor conhecerá a origem da relação que eles têm com a cozinha, o trabalho que vêm realizando e o além-fronteiras, suas descobertas e propósitos. Serão textos livres, abertos, de profissionais que virão dialogar com o blog a respeito de sua cozinha como espaço material e tangível e como espaço simbólico, de rituais, expectativas, desejos e caminhos, entre outros aspectos. Michele falará  também sobre o Hygge, explicando este conceito que se refere à prática da felicidade na Dinamarca, elemento que tem aplicado em suas oficinas e que será o foco da atividade do mês de julho, a Funghi Fest. Adianto apenas esses breves dados, para deixar os nossos leitores  bem curiosos pelo que ela vem contar.  

A respeito da entrevista: perguntarei ao Chef Rodrigo Bellora sobre sua história e seu ofício, o surgimento de sua Cozinha de Natureza e a filosofia do Valle Rústico, sua relação com o movimento Slow Food e sobre outros pontos de sua gastronomia. Essa conversa  será o início do trabalho conjunto que estamos desenvolvendo, com foco na atividade que ocorrerá no XIII Congresso Gaúcho de Psiquiatria do Rio Grande do Sul, de 16 a 19 de agosto de 2017, em Bento Gonçalves, pela Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. 

As próximas notícias vou contando ao longo da semana. E falarei também sobre a minha motivação para iniciar essas duas colunas, o porquê de escolher o Rodrigo Bellora e a Michele Valent como convidados para iniciar a prosa, e as reflexões a respeito de abrir o blog para mais essas formas de partilha. Como um daqueles convites para as tertúlias na mesa da copa. Ainda faltam os nomes para as colunas, estou aqui mirabolando...

Em breve, boas novas aqui no blog!

Com carinho,
Betina
Portas para outras paisagens e horizontes:
o olhar além-fronteiras nas novas colunas do blog




quinta-feira, 22 de junho de 2017

Por um inverno quente de afetos e de sabores!

Scones para o café da tarde:
com geléias, com manteiga, com 'Dulce de Leche'

Bolo de chocolate amargo com calda de figos

Café e bolinho de chuva com gostinho de aniz 

Pão e vinho, dueto perene no aconchego do inverno

Caneca de café com "Nega Maluca"

E a "Nega Maluca" na receita clássica da minha família,
 quadriculada e com calda tripla!

A lareira: expressão máxima do sentimento de inverno,
que acompanha todos os sabores e aconchegos.

No post, algumas das imagens que me fazem sentir que o inverno chegou.
Para você, qual o sabor dessa estação?

Com carinho,
Betina

terça-feira, 20 de junho de 2017

E por falar em "Lentezza": o Slow Food

Pois o "Festival della Lentezza" se aproxima, e provavelmente se origina, de um movimento que referi no post anterior, o "Giorno della Lentezza", um dia dedicado à conscientização sobre a necessidade de desacelerar. Neste, eram promovidas práticas como a do Passovelox, em que voluntários realizando o papel de "pardal dos passos"  pegavam, rua afora, inquietos, agitados e esbaforidos de plantão.

E o "Giorno della Lentezza" surgiu de onde? Ainda estou lendo a respeito, mas um ponto na raiz deste dia é essencial: a aproximação com outro movimento italiano, este de impacto mundial: o "Slow Food". Essa filosofia surgiu para contrapor o Fast Food, mas foi muito além desse propósito. As ideias e iniciativas do Slow Food têm se enraizado pelo mundo, através do que chamam 'convivia', conjunto dos 'convivium' individuais. A força desse movimento é cada vez maior. Aqui mesmo, no  Rio Grande do Sul,  temos a sorte de contar com excelentes nomes expressando sua voz em uma Gastronomia que ultrapassa o prato e chega na origem dos ingredientes: o produtor, a terra, o mercado.

É com um destes importantes chefs que vou conversar em julho, o Rodrigo Bellora, do restaurante Valle Rústico, em Bento Gonçalves. A prosa com o chef vai inaugurar a coluna de entrevistas do "Serendipituy in Cucina", programada para iniciar no próximo mês. Acompanhar o que ele tem feito em seu restaurante, e em seus projetos, dá una baita esperança na essência da cozinha. Essa  cozinha da ancestralidade, que nos bota em contato com o produto vindo da natureza. Essa cozinha do contato com os produtores, da retomada de rituais, da vida acontecendo nos bastidores da mesa. 

Bom, temos muito o que conversar por aqui!

Quer saber mais?
Em breve, detalhes!

Com carinho,
Betina

Figos: direto do produtor...
Ao mundo da panela...
E à mesa...




domingo, 18 de junho de 2017

Refletindo sobre uma 'lentidão possível'


Compartilho hoje um vídeo que mostra a atmosfera do "Festival della Lentezza", do ano de 2016. O evento preconiza que a lentidão referida não é per se um fenômeno de vagarosidade. Não. No festival, não se fala em caminhar devagar no sentido literal, mas em caminhar com foco no presente, prestando atenção aos sentidos, às respostas do corpo durante o percurso, na interação com os demais, no sentir. Uma das palestrantes, Petra Magoni, aponta: "Não é propriamente sinônimo de algo que se faz lentamente, mas de uma coisa que se faz com atenção e em profundidade". Então, o desacelerar a que os idealizadores e participantes se referem não é tanto um elemento de oposição à rapidez, mas sobretudo à inquietude, aos múltiplos estímulos de distração, ao frêmito de viver tudo de uma só vez sem dar-se a oportunidade de saborear a experiência. A oposição mostra-se mais ao hábito de comer com pressa para voltar ao trabalho (e quantas vezes já fiz isso...), à prática de visitar 15 cidades em sete dias, à necessidade de andar rápido no intervalo apenas por automatismo. E essa palavra define muito do que vivemos, hoje em dia: automatismo, tão oposto à autonomia. Tão algoz da autonomia, aliás. 

A primeira vez que ouvi falar em ' Giorno della Lentezza' foi em uma aula de italiano, quando o professor contou do Passovelox, um 'pardal de passos' feito por voluntários em Milão. Esses paravam os sujeitos que andavam com demasiada rapidez, multando-os com o preço de uma conversa sobre a conscientização, o parar para pensar. Acima de tudo, sobre o parar, o diminuir o ritmo, o perceber que não é preciso andar tão rápido para chegar ao mesmo local, para voltar ao escritório ou à empresa. A correria, acabo me dando conta, é uma pantomima das pernas, dos braços e do rosto, um espetáculo que encenamos para nós mesmos para nos certificarmos que estamos no ritmo esperado, no ritmo certo, que vamos alcançar os objetivos do dia junto com nossos contemporâneos porque, simples assim, essa é a demanda do dia: chegar, alcançar a meta, e rápido.

 No pacote, estão o multifoco, o transbordamento das emoções e do stress, a agitação para ser tão eficaz como todos os agitados. Esta é a razão para que eu fale em pantomima. No Teatro, esse termo se refere à representação de uma história através de gestos, movimentos, expressões faciais.A rapidez cotidiana tem uma fisionomia própria, a aceleração dos passos é típica, a gestualidade dos frenéticos carrega até mesmo um gozo na tensão. E todas essas manifestações físicas são próprias da tal pantomima: não é preciso falar, não há discurso, pois essa é uma correria muda. E mais ainda: solitária. Um comportamento que muito comunica sobre a indisponibilidade para o outro, para as cores do dia, para o sabor da comida, para os sentimentos naturais na jornada rotineira. Na correria, fazemos de conta que somos super-heróis, e 'ai' de quem diga que não. Sabemos de nossas limitações, mas é preciso agilizar, dar conta, atingir deadlines, ignorar as limitações e ultrapassar os limites. Sem espaço para o que nos lembre que, lá no fundo, queremos é ter tempo para um pouco de "La dolce vita".

Até a Gastronomia tem sofrido deste "mal do século" nos últimos tempos. A essência da cozinha, que habita nosso sentir com a calma, o fazer demorado e paciencioso, o resgate ancestral nas receitas preparadas como antes, tudo isso cai por terra em uma contemporaneidade pesada. A a Alta Gastronomia tem representado um alto custo de saúde para os chefs  que precisam correr pela perfeição em padrões de Guia Michelin. Então, até a cozinha perdeu a corrida para a agitação do século XXI. Está reduzido o tempo do 'fogo lento', da delicadeza afetiva no preparo dos pratos, da alma das tradições familiares, das refeições partilhadas cujo propósito é o convívio. Sim, isso tem melhorado, o Slow Food e a tendência de cultivar a 'cozinha das avós', muito em voga no mundo todo, estão fazendo o caminho de volta para a 'lentezza' na culinária, também.

O filme "Paris pode esperar", atualmente em cartaz, mostra este contraponto entre o acelerado e desatento diretor de cinema e seu contrário, o bon-vivant que sabe desfrutar dos prazeres da vida com  o uso dos sentidos, do viver o tempo em sua dimensão real, sem estreitá-lo. O contraste entre eles é nítido, e o filme mostra os efeitos dessa diferença na relação que Annie, a esposa do diretor, vai estabelecendo com Jacques, o sócio bon-vivant de seu marido. Jaques não é lento em suas ações no filme, mas vive cada uma das oportunidades sem a preocupação em 'chegar logo em Paris'. Aos poucos, a própria Annie vai usufruindo da mudança de ritmo, aprendendo que a experiência é uma rica oportunidade de saborear a visão de um campo de lavandas, uma bela refeição, uma dança. 

Continuaremos a viver com pressa, atualizando nossos aplicativos do celular, assoberbados de tarefas. Ou podemos diminuir a marcha e perceber que o resultado na eficácia é ainda maior, por aprendermos a estar plenos de atenção e de nós mesmos. A passos lentos, a felicidade cotidiana consegue se equilibrar sem os tropeços da correria. A lentidão proposta não é uma idealização, uma epifania e nem sequer uma panacéia. Não resolve tudo, e não se propõe a isto. O ponto é a lentidão possível, o empenho em modificar o próprio ritmo nas pequenas atividades do dia, sem que seja necessário ceder ao modo automático para adequar nosso ser. Ingrediente principal, para mim, é o que foi proporcionado pelo movimento do 'Passovelox', de que falei acima: a conscientização. Venho buscando colocar isso em prática nas pequenas e nas grandes coisas da minha semana, e os ganhos, em termos de bem-estar, são valiosos.

Vamos tentar? 


Com carinho,
Betina
Fazer chimia em fogo lento:
experiência plena de desaceleração


Sobre a "Carta Constitucional" do Festival della Lentezza: minha tradução

Original em Italiano
"Il Festival della Lentezza nasce intorno a questa Carta Costituzionale. L’ambizione degli ideatori è quella di mettere in discussione nientemeno che il nostro travagliato rapporto con il tempo, dandoci degli strumenti e delle opportunità di cambiamento possibile.

Presto. E’ ciò che ci insegnano fin da piccoli. Bisogna fare presto. Correre. Muoversi. Accelerare. Il mondo non aspetta, non ha tempo. Cresciamo accumulando ritardi, mentre un senso di colpa latente ci avvolge con una patina quasi impercettibile. La tecnologia, se usata male, non aiuta. Semmai accelera l’affanno, perché moltiplica la nostra connessione con un presente ininterrotto che non ammette, appunto, ritardi. A meno che non la si usi come un mezzo per agevolarci le incombenze quotidiane della vita, per abbattere barriere fisiche e virtuali.

Perché altrimenti il rischio è quello di perdere tutto. Perdiamo il tempo, prima di tutto. Esattamente ciò che serve per agganciarci al traino di un’esistenza felice. Proviamo a pensarci: le relazioni, il godimento delle cose terrene, la contemplazione del mondo intorno a noi. Tutto, ma proprio tutto, richiede tempo, e il tempo concede calma, serenità. Sposta l’asse terrestre della bellezza e rende degno il gioco di esserci."
Sostiene Milan Kundera come ci sia “un legame stretto tra lentezza e memoria, tra velocità e oblio”. Questo festival nasce dall’idea di restituire a noi stessi quel tempo sottratto a cui abbiamo rinunciato, un giorno alla volta. Per prenderci cura del nostro passato e immaginare con freschezza un futuro ancora tutto da scoprire.

Il Festival della Lentezza è promosso dall’Associazione Comuni Virtuosi in collaborazione con il Comune di Colorno e si svolge ogni anno il terzo fine settimana di giugno presso la Reggia Ducale  di Colorno (PR).
Meu caderno de receitas: nas páginas, as marcas
  do tempo e do demorado prazer da cozinha
Minha tradução
O “Festival dela Lentezza”, significando ‘Festival da lentidão”, nasce em torno a esta CartaConstitucional. A ambição dos idealizadores é colocar em discussão nada menos do que nossa atormentada relação com o tempo, dando-nos instrumentos e oportunidades possíveis de mudança.

Rápido. É isso que nos ensinam desde pequenos. Precisa fazer rápido. Correr. Movimentar-se. Acelerar. O mundo não espera, o mundo não tem tempo. Crescemos acumulando atrasos, enquanto um sentimento de culpa latente nos envolve com uma pátina quase imperceptível. A tecnologia, se mal usada, não ajuda. No caso, acelera a inquietude, porque multiplica a nossa conexão com um presente ininterrupto que não admite, de fato, atrasos; a menos que a usemos como um meio para agilizar as incumbências cotidianas da vida, para reduzir barreiras físicas e virtuais.

Porque, de outra forma, o risco é de perder tudo. Perdemos o tempo, acima de tudo. Exatamente aquilo que serve para nos transportar à uma existência feliz. Vamos pensar: as relações, o gozo das coisas terrenas, a contemplação do mundo ao nosso redor. Tudo, mas tudo mesmo, precisa de tempo, e o tempo concede calma, serenidade. Desloca o eixo terrestre da beleza e torna digna a brincadeira de existir.

Defende Milan Kundera que exista “uma ligação estreita entre lentidão e memória, entre velocidade e esquecimento”. Este festival nasce da ideia de restituir a nós mesmos aquele tempo retirado de nós, o tempo a que renunciamos, dia-a-dia. Para cuidar do nosso passado e imaginar com frescor um futuro ainda todo a descobrir.


O Festival dela Lentezza é promovido pela Associazione Comuni Virtuosi em colaboração com a Comune di Colorno e se desenvolve a cada ano no terceiro final de semana de Junho, em local chamado “Reggia Ducale  di Colorno" (PR).


(tradução livre do texto apresentado em Festival della Lentezza)


Com carinho,
Betina