quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Sabor e Amor: para além da rima

Conversávamos a respeito do fenômeno 'sabor', ontem, nos caminhos do livro "A Fisiologia do Gosto", de Brillat-Savarin. E lembrei, hoje pela manhã, que certa vez aqui no Blog aproximei, para além da rima, o sabor e o amor. Porque ambos contemplam os cinco sentidos, as emoções e a memória, os sentimentos e nossas reações físicas ao prazer do que estamos degustando ou vivenciando. 

Ainda ontem referi que o autor tem uma forma muito particular de abordar o campo sensorial: ele adiciona um sexto sentido aos cinco estabelecidos, o 'genésico', ou 'amor físico'. É com a multiplicidade de percepções que saboreamos um prato. E é com a mesma multiplicidade que experimentamos a vivência amorosa: o olhar do outro, a sua voz, o toque da pele de quem amamos, o seu cheiro e o seu gosto. Todos os sentidos pulsam para que o corpo registre a impressão como preciosa, e amplie este reconhecimento a vários centros do cérebro e, por conseguinte, do nosso corpo inteiro. O corpo passa a amar, e neste sentido é muito enriquecedor ler que o ilustre gastrônomo Brillat-Savarin, nascido em 1755 e falecido em 1826, já compreendia o amor físico como parte dos sentidos. E esta é a magia da semelhança entre os elementos 'amor' e 'sabor': há o componente perceptivo, sim, mas há, nos dois, a relevância indiscutível da emoção e das lembranças. 


Muitos de nós temos, num estalar de dedos, a memória de um doce que só uma avó ou tia executava com perfeição, ou o registro de um prato que saboreamos numa ocasião de encontro amoroso ou com amigos muito estimados. São circunstâncias que restarão em nós para sempre: quando evocarmos esta ou aquela receita, de imediato estará vivo em nós o momento em que saboreamos a textura do alimento, sua temperatura, seu gosto e cheiro, o som de sua crocância ou o silêncio de sua maciez. No entanto, estes aspectos adquirem significado apenas quando aliados à emoção associada a eles. Por quê? Bom, é um conjunto de fatores que nos faz vibrar  com uma "Lasagna al Sugo', para além do 'como-se-faz', dos ingredientes do molho, do ponto 'al dente' da massa. Eu diria que o processo é anímico: não é só a textura, o apimentado, a temperatura do prato, não é só o som do alimento à mordida ou só o gosto ou cheiro ou as cores dos legumes: importa o que o sabor nos faz sentir. Por isto, ontem referi que, para mim, ele é o sentimento pela comida. E é neste ponto que percebo sua existência como vizinha ao amor: há o teor físico imprescindível (equivalente à matéria alimento, no que tange ao sabor), mas o que conta, o que o torna amor, é vivenciado no campo emotivo:  aqui, importa o que o outro nos faz sentir. 

Do ponto de vista neuroquímico, há muito a contar sobre a compreensão atual do fenômeno 'sabor': há um livro maravilhoso sobre isto, de que já falei aqui, o "Neurogastronomy- How the Brain Creates Flavor and Why it Matters" (Gordon Shepherd, 2012). Em Português, "Neurogastronomia: Como o cérebro cria o sabor e por que isto importa". Na obra,  a abordagem neuroquímica caminha lado a lado ao olhar filosófico  de Brillat-Savarin em sua "A Fisiologia do Gosto", e traz pontos interessantíssimos sobre os circuitos cerebrais envolvidos na composição do sabor como experiência e, mais ainda, sobre o papel das emoções e da memória nestes circuitos.




E foi a partir deste estudo que lembrei do livro "La Natura dell´Amore", da psiquiatra e neurocientista italiana Donatella Marazziti, em que esta propõe explicações biológicas para o amor, baseadas em suas pesquisas na Universidade de Pisa. Em seu livro que estudei ao longo de 2006 e traduzi em 2007 para o Português do Brasil, "A Natureza do Amor", muitas são as aproximações possíveis com a vivência de saborear um alimento que 'nos toca a alma'. E este ponto é incrível: em todas as leituras, ainda que com a busca da explicação científica, se percebe a força daquilo que não pode ser explicado em todos os processos, o que fica sublime em nós: a percepção do sentir, que nos liga ao ser amado; no caso do sabor,  este sentir nos liga a uma vivência específica com um prato de nossa memória emocional. Um prato que nos lembra de algo ou de alguém precioso para nós, em nossa história de vida. 

No cerne de todos estes acontecimentos fisiológicos, encontramos este 'sentir' que ultrapassa a vivência sensorial para contemplar nosso campo subjetivo, recheado de emoções, de registros conscientes e inconscientes, de reflexões, de bagagens de nossas experiências. Apreciar um sabor é, por algum motivo, reconhecê-lo como pertencente ao nosso território de prazer, é aceitar que nos 'toca' e integrá-lo aos nossos códigos de "eu gosto disso". Tantas vezes, não há um único porquê, mas a união de diversos pontos. A sensorialidade é, por certo, a ferramenta que propicia que tenhamos a completa vivência do sabor. Interessante é observar que, algumas vezes, os cinco sentidos não dão conta de capturar a experiência: sentimos, mas a força do alimento é maior do que seu gosto, aroma, textura e por aí vai. Porque o significado que atribuímos a tal prato, ou a tal doce, ou a tal quitute, é tão profundo em nós que não há como gostarmos apenas porque os sentidos permitiram. Gostamos porque nos toca a pele, a emoção. Gostamos porque nos toca a vida, nos faz sentir um prazer maior que o físico: o prazer de estarmos vivos para sentir.


No livro "A Natureza do Amor", citado acima, há um trecho da obra [Conversas em Bolzano], do autor Sándor Márai que, no meu entender, traduz muito desta incógnita que é o sentir:

"Devemos nos resignar ao fato de que, se amamos alguém, não é por suas características, por sua beleza ou por seus dotes individuais; amamos tão-somente porque no Universo age uma vontade, cuja real substância não conseguimos entender, que se manifesta de formas sobretudo casuais para que o mundo possa renovar-se na sua perene rotação. É uma força que toca os corações e os nervos segundo critérios inexplicáveis, estimula o funcionamento dos hormônios e obscurece as mentes mais lúcidas. Nós, seres humanos, (...) estamos aqui para compreender esta força misteriosa, embora incapazes de decifrar suas intenções...".

É possível que o trecho valha também para a vivência do saborear as comidas que fazem parte de nossa história, embora em menor intensidade do que a usada pelo escritor em sua expressão sobre a experiência amorosa. Conhecermos mais do que nos 'toca os corações e os nervos segundo critérios inexplicáveis', sejam eles amores ou sabores, faz com que possamos conhecer mais de nós mesmos, e esta é sempre uma oportunidade de renovação.

Nos próximos posts, mais sobre a Neurobiologia do sabor! 

Obrigada pela visita!

Com carinho,
Betina
                          

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Sobre "A Fisiologia do Gosto", de Brillat-Savarin: folheando sabores



Pois a postagem anterior surge de um instante mágico: esperando o almoço chegar, coloquei sobre a mesa uma das minhas leituras culinárias favoritas: "A Fisiologia do Gosto", de Brillat-Savarin, livro de que já falei algumas vezes aqui no blog. E, quando vi, era a obra que ocupava o espaço de prato principal, posicionada sobre o jogo americano de palha leve. O guardanapo de tecido, um xadrezinho preto e branco, exibia-se de soslaio, na intimidade da mesa posta. Num relance, percebi no conjunto uma harmonia de cores, de sensações, de prazeres. Porque, se a Literatura nos alimenta, isto é ainda mais real quando falamos nestes escritos sobre a fisiologia do gosto. 

O livro é da editora Companhia das Letras, e meu exemplar é de 95. 

O texto nos faz adentrar no cerne de temas alimentares, vezes cotidianos, vezes inusitados, mas todos os capítulos (que o autor chama de "Meditações") são interessantíssimos, por serem uma reflexão apurada sobre o comer, o saciar, o saborear, e por aí vai. 

Fundamental é a leitura sobre os sentidos, de peculiar abordagem feita por Brillat-Savarin. Agora, há também que avançar os olhos para "Do Apetite", "Teoria da Fritura", "Da sede", "Sobre o fim do mundo", "As Damas", "A Digestão", "Da influência da dieta sobre o repouso, o sono e os sonhos", "Mitologia Gastronômica", e tantos outros. Quem folhear o livro, vai se surpreender- e eu apostaria isto- com os títulos e subtítulos, e não poderá interromper o paginar afoito, buscando outros assuntos e seus nomes curiosos. Por exemplo? "Virtude erótica das trufas", Influência da Gastronomia sobre a felicidade conjugal", "Influência financeira do peru", "efeitos da Gastronomia sobre a sociabilidade"...O índice parece, ao menos para mim, o mapa de uma cidade desconhecida que desejo explorar de canto a canto: leio a chamada "Longevidade anunciada aos gastrônomos", e fico imaginando o que o autor terá a dizer de tão único neste quesito. O índice também é como um  cardápio, vamos degustando cada nome, sentindo a vida de cada sabor imaginado, de cada título.

Esta obra é pura filosofia, através dos assuntos da mesa. Na orelha, encontramos: "(..) um elogio à amizade, à moderação, à delicadeza e à elegância, temperado com certa linguagem científica da época e com o indisfarçável prazer da boa mesa e pratos refinados".

E foi, num ato casual e repentino, que deixei o livro ocupar o centro da mesa enquanto o almoço não vinha. Acarinhando as páginas na passagem lenta de uma a uma, percebi que as "Meditações" do autor nos conduzem a percursos mágicos dentro de nós mesmos, e não apenas sobre a alimentação. É a nossa vivência humana na relação com o prazer que está ali expressa, em meu entender. 

Enfim, é uma leitura a ser vivenciada, esta. Com mastigares lentos, saboreantes, gostos reais ou imaginários, consistências muy particulares. E com força anímica para sentir o texto, com sua delicadeza e profundidade.

Depois de ter lido um dos capítulos, meu almoço chegou, e saboreei com demora cada nuance. Acho que 'sentir o sabor' vai bem além da referência aos sentidos presentes no comer: trata-se do sentimento que nasce, em nós, ao degustarmos a refeição também com nossas emoções, memórias, experiências, aspectos envolvidos neste conceito.

Bom, acho que o sabor é, sim, uma forma de sentimento pela comida. E esta obra nos faz pensar sobre isto.


Bom proveito!

Com carinho,
Betina

                     

A leitura como prato principal: "A Fisiologia do Gosto", de Brillat-Savarin!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Bem-vindo, Setembro!


Setembro é mês de almoço no pátio, com amigos de sempre. De piquenique imprevisto. E de ir à feira em chapéu florido, sol ameno. 
É tempo de amor primaverar, amor sereno. Tempo de bolo macio e fresquinho, 
em louça de vó, lanche da tarde. 
De abrir janelas, arejar a casa.
Tempo de flor abrir, ensolarando o jardim. 
É mês de sentar no campo, na toalha amarela, coisa de passar o dia. 
Descanso feliz, celebrante, 
tim-tim. 
Quitutes? À vontade. 
Preguiças, sonecas, risadas, brisas, sucos, sanduíches, maçãs, sonhares. 
Antes, agora?
 Relógios, fora.


 Setembro é todo primavera, 
 Espera, começo. 
Um ventar em sopro, flor-a-flor. 
Mês de sorriso manso, ritmo de dia nascendo, de ideia nascendo, de esperança nascendo. 
De livro nascendo, palavra-a-palavra. 
De amor nascendo, beijo-a-beijo. 
De trabalho nascendo, sol-a-sol. 
De alegria nascendo, dia-a-dia.

 Ah, todo mês é assim. 
E este é setembro, pra mim. 

A todos os amigos-leitores, 
desejo um belo 
Setembro em flor!


Com carinho,
Betina