quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Entradinhas celebrantes!


Então, começamos a planejar as festas de fim de ano!  Amigos, quitutes, brindes, família, regalos, doçuras...tantas celebrações, que não faltam motivos para ensaiar uma nova receita. Uma não, várias! E este é o propósito: salpicar dicas d´aqui e d´acolá para os acepipes da estação. 
Dando a partida, o balcão de sabores, na foto, em duas ocasiões. Ando até procurando umas delícias 
d´além mar...
Não estou pensando na ceia natalina, em si, mas naqueles encontros de dezembro, com grupos diferentes de amigos e de colegas, para os brindes de fim de ano. Que tal mudar os planos: oferecer a casa e combinar um 'potluck', em que cada um leva um quitute para a partilha?

Ainda em pesquisa de receitinhas, em breve começo a postar aqui. Por enquanto, participe da proposta, separando as suas ideias e, quem sabe, inventando novos sabores!

Com carinho,
Betina

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Quitutes para as festas de fim de ano!!!

Numa pausa dos contares de gente de aqui e de acolá, hoje venho trazendo notícias. Acontece que estamos entrando em dezembro, mês cheio de comemorações, e percebi que o tempo urge! É preciso, nesta época, levantar receitinhas e ideias para as partilhas de final de ano!!!! E é o que vou fazer!!!

Muitos dos leitores já sabem do quanto gosto de bolar acepipes, quitutes, entradas para  os encontros festivos. Posso dizer, sem titubear, que é minha diversão favorita na cozinha. Sim, gosto de fazer doces, também, mas o prazer de criar e de descobrir entradinhas é único!

Então, comecei a selecionar receitas de vários livros de culinária da minha coleção. A ideia é transmitir o 'como-se-faz' de várias propostas, aqui no blog, neste mês de Festas. Claro, com o plano de realizar as indicações sempre esta ou aquela mudancinha, com esta ou aquela 'Serendipity' que nasce quando trocamos um ingrediente por outro...E sugiro ao leitor que faça o mesmo: que a partir do meu olhar, lance o seu ('O que eu colocaria no lugar do Funcho?'). Há receitas a serem traduzidas, há dicas a serem adaptadas. E há apetite e curiosidade pelo que descobriremos!

Em breve, começamos!!!

Você tem alguma receita para nosso propósito?

Com carinho,
Betina

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Dona Tereza, a merendeira!

Depois da lembrança dos bolos da Anilda e da Marli, fiquei pensando em outras pessoas que, nas minhas vivências, traduziram o amor pelo ato culinário. E veio, num flash, a imagem da Dona Tereza, a merendeira do jardim de infância!!! Claro, lembro pouco, muito pouco dela: tenho alguma memória de sua fisionomia. E de sua voz, quem sabe. Lembro que  vestia um avental branco, apertado pelo laço na cintura... era simpática, alegre, de um riso único...nas formas, parecia uma árvore frondosa, tinha aquela mesma força de raiz que vi na Dona Lola. E fazia sanduíches de presunto e queijo, com uma camada reluzente de manteiga! Não sei como me lembro desse tanto, mas quando hoje 'saltou' sua imagem dos registros, fui anotando o que eu era capaz de recordar sobre ela. Seu amor pela cozinha transbordava: tinha uma alegria natural no rosto, cada vez que nos entregava seus sanduíches, um por um. Não só a alegria: tinha um zelo especial, segurava seu 'rebento' com as duas mãos, deitando-o nas mãozinhas pequenas de cada criança. O amor era tangível, sólido como as fatias de pão; o amor ao fazer, o amor ao entregar seu feito, o amor ao ver-nos abocanhando a merenda. Chego a sentir o cheiro pleno da cena, em seus ingredientes. Sem a Dona Tereza, seria apenas um pão com presunto, queijo e manteiga. Por causa dela, merendávamos em festa, esfarelando todo o chão...!

Com carinho,
Betina


O 'Bolo de Melado da Anilda' e o 'Bolo de Cenoura da Marli': patrimônios da minha história pessoal!!!



Depois da escrita de ontem, hoje fiquei pensando em pessoas significativas na minha história de vida. Figuras que, assim como a Dona Lola, revestem de magia um sabor, um ingrediente, uma receita, pelo amor que transmitem no ato culinário. Bom, muitos dos leitores já leram sobre a Anilda, a 'personagem' do texto "Bhaskara no lanche da tarde", neste blog e no meu 'Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras'. Pois ela é uma destas figuras únicas! Convidada para o lançamento do 'Alfarrábio', em dezembro de 2012, e sabendo que havia no livro uma homenagem a ela e a sua receita, levou-me um belo exemplar de seu famoso 'Bolo de Melado da Anilda', para que eu partilhasse, com meus convidados, o sabor tão memorável pra mim. Ali estava, vivo e cintilante, o amor no alimento.



Naquela manhã dezembrina, senti a pulsação do bolo, vinte anos depois de prová-lo em uma das aulas da Anilda.

 O como-se-faz? Guardei no meu caderno de cozinha, este tempo todo!

"Desmanchar 500g de melado com 130g de margarina, deixar amornar; acrescentar a esta mistura 4 gotas de essência de amêndoa; unir 1 ovo; adicionar ao conjunto 1 1/2 colheres (das de chá) de cravo moído e 3 colheres (das de chá) de canela em pó; peneirar 500g de farinha de trig cin 5 colheres (das de chá) de fermento químico; adicionar 125g de castanhas picadas e 125g de passas de uva embebidas no rum. A massa deve assar por 30-40 minutos em forno médio. Quando pronto o bolo, polvilhá-lo com açúcar de confeiteiro ou pincelar chocolate em pó desmanchado no rum."

                                            ('Seguindo as Pistas', pg 79. 'Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras')


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E seguindo a prosa, pensei em outra pessoa muito importante em meus trajetos. Cozinheira de mão cheia, a Marli trabalhou em nossa casa por 26 anos, dos meus 10 aos 36 e, com certeza, deixou registros indeléveis na sua história com nossa família. Um deles é, sem sombra de dúvida, o 'Bolo de Cenoura da Marli', patrimônio culinário das memórias de infância e adolescência, tanto para mim quanto para meu irmão. Havia amor naquela massa, um amor que podíamos sentir na mordida mansa do quadrado de bolo, depois de um 'creck' na casquinha. Saboroso, de um laranja vivo, de um volume farto. Na forma, ainda quente, era alto, corpulento, perfumado, insinuando-se por toda a casa. Era nosso lanche da tarde, a escapadela da noite, a merenda no colégio, por muitas vezes. Claro, era saborosíssimo, mas tenho certeza: ficou pra história pelo amor com que ela fazia. Isto muda tudo. Para mim, muda a força de uma receita.
Há alguns dias, recebi dela o bilhete com o como-se-faz e- mais lindo de tudo- com a dedicatória ao final.

Então, aqui vai a partilha!

'Bolo de Cenoura da Marli'

1º Passo: 
"No liquidificador, colocar 2 cenouras médias, 4 ovos, 1/2 xícara de óleo e bater tudo, até formar um creme.

2º Passo:
Numa bacia, colocar 2 xícaras de farinha de trigo, 2 xícaras de açúcar  e 1 envelope de fermento químico.

3º Passo:
Acrescentar o creme do liquidificador e misturar tudo. Então, untar e enfarinhar a forma, e colocar a mistura completa da bacia. Pré-aquecer o forno por 10 minutos, em 180ºC. 

Quando estiver dourado, está pronto para servir. Fazer o teste do palito, fincando-o no bolo em sua profundidade, para testar se está pronto: se sair sequinho, pode retirar do forno (em média, 30-40 min.)"
Lembrei de outras gentes e de outras receitas pelo meu caminho, sempre emblemáticas do amor ao alimento e ao comensal, um amor vivo nos ingredientes da massa. Engraçado é que as autoras são tão parte do processo, que se tornaram até o 'sobrenome' da receita: 'Bolo d Melado da Anilda', 'Bolo de Cenoura da Marli!!!

Você tem alguma receita como estas em seu caderno, em sua história?

Amanhã tem mais!!!

Com carinho,
Betina


domingo, 17 de novembro de 2013

Voltando para a cozinha!!!

Depois de um bom período de correrias e de mudanças de vida, voltei à cozinha, neste mês de novembro.  Diz o escritor moçambicano Mia Couto, em um de seus contos, 'Cozinhar não é serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros': na culinária, há vida na entrega, na disponibilidade para o preparo; há pulsação  nas palmas das mãos que tocam o alimento. Fazemos a comida com amor a quem a receberá. Com amor e com desejo pelo ingrediente.

E não  é sempre que estamos afinados com o ato culinário. A meu ver, muito depende de como estamos conosco. Por exemplo, tanto para uma viagem quanto para a cozinha, é preciso que façamos conexão com nosso tempo interno: um espaço subjetivo em nós, onde é possível o livre acesso ao mundo dos sentidos e dos sentimentos. Se chovemos ou ventamos, a conexão falha, pois este espaço quer nossa presença vibrante, atenta ao alimento. Para mim, é esta atenção, esta plenitude no ato de cozinhar que permite que o amor seja transmitido ao nosso preparo. 'Entrega' é a palavra de ordem: assim como o mapa deve guiar o viajante em seu percurso, na culinária o mapa é o conjunto de nossos sentidos.
 E este é o ponto: seja para fazer algo para oferecer a outros, seja pelo fazer em si, a cozinha requer  atenção e amor, pleno e irrestrito. Isto é possível apenas quando estamos disponíveis para tal, no campo anímico, afetivo, físico. Leia-se: vezes sim, vezes não.

Bom seria se pudéssemos fazer como a Dona Lola, 'estarmos ali, e pronto'. E ela clama: 'do resto a vida se encarrega!'. Não está nem no antes, nem no depois: está cuidando de seus doces, no exato instante em que lhes dá vida. Um amor incondicional, parece. Acontece que a Dona Lola é personagem, não é tão de-verdade assim: fosse de carne-e-osso, teria amor perene para dar??

Afinal de contas, temos nossas intempéries...

Neste post, refiro-me ao amor específico que colocamos na comida, mas saliento: na origem, está nossa capacidade de amar, de dar e de receber amor.

No meu sentir, esta capacidade resulta do espaço que criamos aqui dentro, para acolher o novo. Em épocas de revolução interna -em nossa rotina, trabalhos, relacionamentos, decisões-, a bagunça é tanta que as emoções saem do lugar, se desalojam; no movimento, esvaziamos campos em nós,  dando nicho ao desconhecido. O vazio é fundamental, permite que tomemos contato com nosso mundo interno, com nosso tempo interno. É quando surge espaço para o amor, aquele de nós para nós,  e então aquele de nós para o outro.

 E ali estão o ingrediente, a cozinha, a receita, o apetite, esperando para entrar em cena.

Na culinária, a entrega ao processo traduz-se na aproximação com o comensal, com o alimento, com a comida, com a partilha de nós e do que preparamos.

Por isto vim para a cozinha só agora: enxerguei o vazio corpulento, grande, vivo. Pronto para ser tomado por uma força maior, o desejo pelo ingrediente. 

E não é deste modo que começam as paixões?

Com carinho,
Betina

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Num sorriso largo...

Dona Lola hoje deve estar preparando os figos de novembro, para o final do ano...Quando chegar com a sacola de frutas, o que virá contando? Já é mais de quinzena que veio pela última vez, dizendo que não deixa ninguém se aproximar de sua cozinha, ciumosa que é das panelas...Quando está em silêncio na lida com os doces, permanece à beira do fogão com tal afinco que se torna, com ele, uma coisa só, absorta pela bruma desta largueza. 

Dona Lola tem força de raiz, já contei: sabe tudo do que vem da horta, do pomar, do quintal. Conhece, literalmente com a palma da mão, cada textura, cada cor assim ou assado de suas laranjas, abóboras e figos...E mais: se suas mãos não sentissem as frutas, seus olhos o fariam. Isto mesmo, ela aprendeu a tocar com os olhos, aprendeu a perceber cada nuance. É boa também nos cheiros e nos gostos, vê-se pela silhueta alargada...E se atenta, como ninguém, aos sussurros dos doces durante o preparo. É nesta atmosfera que a senhora se transforma, vivendo os sentidos em  plena expressão.

 Ninguém ouse chegar perto: é território mágico, onde só ela habita. É espaço onde se reconhece, onde volta para si mesma, onde a quietude mansa do forno-e-fogão acolhe suas inquietudes e sem-porquês. Ali, o cenário é personagem, também: cada colher-de-pau e cada caçarola têm vida própria. E ela, naquele terreno, não é a mesma que leva a sacola de frutas no portão, falante e ágil, quase bicho-carpinteiro. No seu campo, Dona Lola se permite um profundo e respeitoso silêncio, cala toda espécie de ideia ruim que lhe passa. Então, percebe os sentidos, sente a vida do pedaço de fruta, lembra-se de alguma história com aquele cheiro. Neste instante, o doce torna-se vivo graças à ela, e vice-versa: Dona Lola também se torna viva graças ao doce. Um é criador e criatura do outro, e esta é a força de sua união com o alimento.

Está ali, e pronto. 'Do resto, a vida se encarrega', ela diz, num sorriso largo.

Com carinho,
Betina

domingo, 10 de novembro de 2013

Os figos cristalizados da Dona Lola!

Era coisa de dois meses que a Dona Lola não passava pela rua com sua sacola de frutas para vender. Foi em meados de agosto que subiu a quadra melodiando seu 'Laranja pra doooooooce!!!', e chamei-a com pressa, que não escapasse. Peguei as laranjas, perguntando seu nome e tomando nota do contato, 'Pode me chamar se quiser mais das laranjas.', ela sorriu, seguindo:

-Mas tem que lembrar: laranja é só por agora, tá terminando...abóbora ainda faço, tá na época, mas lá por novembro vou trazer os figos pro Natal!
-Os figos!-eu vibrei, logo me recordando daqueles históricos figos cristalizados de fim de ano, da Vó Léia.
-Eu trago por novembro, tem muita gente que pede. Se precisar, avisa antes, que pode ser que acabe em seguida, é muita gente pedindo, sempre por agora...
-Pois vou aproveitar que a Senhora tá aqui, então...Como é que eu preparo? Quanto de figo pra quanto de açúcar e de água? Quanto tempo no fogo?
-Bom, para uma quantidade de uns 100 figos, usa 2 kg de açúcar e água que cubra o figo. Eu já trago sem a casca, tem só que fazer uma cruz pequeninha, com a ponta de uma faca, na base de cada um. Cobre com a água, deixa duas horas em fogo baixo e depois apaga o fogo e deixa duas horas os figos ali na panela. Quando ficarem frios, reveste com o açúcar cristal. Fazendo assim, ficam uma delícia, e bonitos!!!

Um sorriso cresceu em mim: reencontrar o 'como-se-faz' dos figos da Vó, assim de surpresa, foi um presente de afeto, de história, de mágica. Agradeci, pedi que trouxesse os figos logo que começasse a vendê-los este ano.

E lá se foi a Dona Lola, com sua sacola de laranjas, percorrer a rua. 
Quarteirão a quarteirão, faz de seu serviço um reviver das histórias de família, por onde passa. Uma avó que fazia assim, uma tia que fazia assado: ali está a Dona Lola pra contar como se prepara tal doce, que a gente nem se lembra mais. Na sua voz, uma força  perene: a fala tem um calor manso, bom de ouvir.

As lembranças cintilam no ouvinte como as frutas que, viçosas, ganham vida nas mãos da senhora.
Será este seu segredo?

Com carinho,
Betina