terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Paciência: virtude que aprendi na cozinha! Feliz 2014!!!


  Recebi este texto de uma querida leitora do Blog, e quanto me identifiquei!! E é aqui o lugar para escrever sobre Paciência: descobri esta virtude na cozinha, desde o começo, quando aprendi a fazer meu bolo de Natal, com a Vó Léia. A primeira paciência: misturar bem o açúcar e a manteiga, até formarem uma massa homogênea. Misturar a farinha e a maizena, com calma, e depois unir as misturas. E fui aprendendo, com os ofícios culinários, que não se pode apressar o tempo da receita. Que não se pode acelerar o crescimento do pão, enquanto a massa descansa. Que não se pode acelerar a alquimia entre os ingredientes, na chimia de tomates nem nas relações. Foi a cozinha que me ensinou a ter paciência. E o fazer tornou-se lúdico, demorado, pleno de detalhes, pois temos mais tempo para observar as nuances, quando agimos com vagar. Na minha imaginação, Paciência teria raiz em 'passos', um passo de cada vez...E que interessante...

Pelo Dicionário Houaiss
Passo: "ato de deslocar o apoio do corpo de um pé a outro enquanto se anda em qualquer direção; o espaço compreendido em cada um desses deslocamentos. Na etimologia: at. pássus,us (e, tardio, passus,i): propriamente (tardio) 'afastamento das pernas', donde 'espaço compreendido entre esse afastamento; passo, passada; medida itinerária equivalente a cerca de um metro e meio', der. de pandère 'estender, abrir, desenvolver; afastar'; ver 1pass-; f.hist. 1008 pasos, sXV passo."
Paciência:  "lat. patientìa,ae 'capacidade de suportar, constância; submissão, servilismo; faculdade de resistir', der. do v. patìor,èris,passus sum,pati 'sofrer etc.'; ver 2pass-; f.hist. sXIV paciencia, sXIV paceeça, sXIV paçiençia, sXV pacientia, sXV peciecia."

Para mim, a Paciência é a Arte do Passo.

E o espaço do passo é o tempo. Tempo de espera, que a outra perna alcance, tempo de espera, que a perna da frente espere. Aprendemos a ter paciência, a adequar o tamanho dos passos, a seguir a caminhada em velocidade harmônica. 

E a minha rima de Paciência? Vivência.

Entonses, desejo aos queridos leitores que neste 2014 tenhamos muita felicidade, brincadeira, receitas e preparos mágicos na cozinha, amor, afeto, 'mão-na-massa', giros da colher-de-pau enquanto o doce vai, pouco a pouco, se aprontando. Que possamos viver a Paciência como virtude de atenção máxima ao presente, mesmo enquanto esperamos pelo futuro. Que possamos curtir o tempo de cada colheita, na estação certa, no tempo justo da espera: verão, outono, inverno e primavera. Cada período com seu clima, seus quitutes, suas surpresas e suas constâncias.

Feliz 2014, e que sigamos nos encontrando aqui no "Serendipity in Cucina"!!!

Gracias pela partilha!


Com carinho,
Betina











domingo, 29 de dezembro de 2013

Que nunca nos falte!!!


Encontrei este quadro negro entre as minhas imagens e fotos  na página do Facebook, hoje. Lembro de quando o vi, na virada de 2012 para 2013: há muito de mim nestas frases, e me identifico com cada uma, em especial. Que nunca nos falte...! No entanto, se eu tivesse o giz na mão, em frente a este quadro, acrescentaria alguns outros elementos:

"Que nunca nos falte: (...) uma nova comida a saborear, um quitute a criar, um novo ingrediente a arriscar, uma receita a descobrir, um restaurante a conhecer..."

Há outros pontos de que vou lembrando, mas, aqui no blog, considero vitais - e meus favoritos- estes acima. 

E você, querido leitor: que frases acrescentaria ao quadro negro? 

Então, 'Que nunca nos falte!'

Com carinho,
Betina




sábado, 28 de dezembro de 2013

Uma figada à meia-noite...



A figada? Nasceu na virada do relógio, à meia noite de ontem,
 para aproveitar figos que não cristalizei. Nasceu de impulso, pura vontade de criar uma receita numa hora imprevista. Um ingrediente foi chamando outro, pelo cheiro, pelo aspecto voluptuoso...E tinha que ser num panelão, com colher-de-pau, pra ter graça...

 Como-se-faz: Pode usar figos em calda, ou mesmo os cristalizados. No primeiro caso, escorrer a calda dos figos, com uma peneira. Na panela, amassar os figos inteiros, formando uma espécie de purê. Em fogo brando, mexer sempre, acrescentando os ingredientes...


...15 figos em calda, noz moscada a gosto, pitadinha de pimenta preta,
1 cálice (dos de licor) de vinho licoroso, 1 colher rasa (das de sopa) de vinagre balsâmico,
raspas de um limão.


Sugestão: uma delícia com queijos!

O aroma final é telúrico...o sabor, exuberante, aventureiro...
Bom proveito!!

 Em breve, fotos e detalhes da figada!

Com carinho,
Betina

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A festa na Festa: partilhando a elaboração dos quitutes!!

Bruschetta de Parma e Alcachofra, com queijo Grana ralado e pimenta preta
(em pão integral)
Pastinha de azeitonas Azapa e queijo Grana (acima)
e manjericão com queijo Pecorino (quadrante inferior direito).
Nos três outros quadrantes, Parma com figos, figos cristalizados e torradinhas.

Bom dia! Na atmosfera do 'Boas Festas', é uma delícia criar saborices na cozinha, para a partilha nas mesas de Natal e Ano Novo. O lúdico está, inclusive, em elaborar os quitutes junto com a família e os amigos, quando há intimidade para 'botar a mão na massa' durante o bate-papo. Para mim, este é um modo muito especial de celebrar, pois inclui os convivas na tarefa: um ajuda aqui e outro ajuda ali, vamos fazendo e explicando as etapas do como-se-faz, a turma vai montando a mesa...e tudo vira festa!

Pois participei de um Happy Hour assim, num desses dias. E foi super prazeroso elaborar os quitutes junto com a turma, degustando a conversa e as provinhas, enquanto fazia. Percebi a mágica que envolve os comensais, numa ocasião como esta: a autoria culinária é partilhada! O que provou a pastinha, a que decorou a mesa, o que finalizou o sal e a pimenta, todos os detalhes fazem parte da vivência de cozinha. Vestida de avental, em pé no balcão durante a feitura dos acepipes,  o grupo circulando nas arrumações, eu era uma alegria só! E, claro, não poderia faltar a bagunça que envolve os preparos...Nas fotos, algumas das invenções...

Saborear as entradinhas, na mesa redonda ao ar livre, 
brindando, presenteando e rindo, 
foi a segunda parte da festa.
E afirmo: este momento foi  tão prazeroso quanto produzir, 
em conjunto, a alquimia dos ingredientes!!

Em breve, outras ideias para os encontros de Happy Hour
desta época festiva!

Com carinho,
Betina







quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Entradinhas com figos: aproveitando a produção!

Na mesa de entradinhas, os figos abertos com Presunto de Parma,
no quadrante inferior esquerdo,
e os figos inteiros, no quadrante superior direito. 
Detalhe da decoração de figos no Presunto de Parma:
aproveitando cores e formas
Bruschetta de figos com Presunto de Parma
Burschetta de Figos, Presunto de Parma e Pecorino fresco
(Ao tostar a bruschetta, o açúcar cristal sobre o queijo confere brilho ao quitute, além de
um sabor adocicado bem saboroso...)
foi de improviso, mas adorei o resultado!
Quitute improvisado: figos, Parma e Pecorino fresco
Outra versão do quitute improvisado...
Saladinha de Parma, Corações de Alcachofra e figos



Queridos leitores! Apresento, aqui, sugestões do proveito dos figos em entradinhas, seguindo a trilha dos 'Hors D´oevre' propostos no blog, neste dezembro! Em seguida, outras receitas, ideias e histórias
de figos e com figos!

Bons quitutes a todos!

Com carinho,
Betina





Mais fotos da feitura dos figos...

1) Ao ferver, coloco em fogo baixo até o final do preparo.
Percebe-se que os figos ainda estão duros, nesta etapa.

2) em fogo baixo, 2h30 a 3hs de preparo no total.

3) Assim ficou a calda...

4) Quase prontos...

5) Prontos!

6) Pronto: cintilante, viçoso, translúcido...e macio! 

O preparo dos figos, passo a passo!

1) Figos na bacia, começando os trabalhos...
2) Fazendo a cruz na base do figo: essencial para o processo!!!
3) Feitas as cruzinhas em todos, ao som de Bossa Nova!
4) 50 figos, 1kg de açúcar e água que cubra...A sorte está lançada!
5) Ao ferver, coloca-se em fogo baixo...este é o aspecto nesta etapa.
6) Ao final do preparo, o aspecto da calda e dos figos...
7) Prontos: cintilantes, viçosos e quase translúcidos...Ponto-chave: maciez!
8) Deixando escorrer a calda...
9) Preparando para cristalizar...
10)...e cristalizando!
11) Dispondo em uma superfície com papel alumínio, até o dia seguinte...
12) ..Prontitos!
 Queridos leitores, espero que tenham tido um excelente Natal! Agora, os preparos para a virada do ano!

E este é o passo-a-passo dos figos cristalizados, como me contou dona Lola. Em seguida, novo post com fotos da feitura dos figos, com detalhes da 'fisionomia' de cada etapa. 

Bom proveito!

Com carinho,
Betina











quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Os figos cristalizados, finalmente! E um Feliz Natal!!!!!!

Olá!!!!!!!!! 

Há quanto tempo não escrevo...Com as correrias de fim de ano, deixei para escrever com calma sobre os últimos acontecimentos. Pois é: no plural, mesmo; no entanto, posso dizer que diversas ideias derivaram de um fator muito singular: os 'figos pra doce', vendidos pela Dona Lola. Lembra dela? A doceira aquela que vende 'laranja pra doce' e 'abóbora na cal', na rua onde trabalho, e que virou personagem do blog.

Dia desses, pouco antes do Natal, a campainha toca, com alguma insistência. Vou à sacada, ver quem é. Lá de baixo, no portão, em voz de boa notícia, ela grita: "Trouxe figos pra ti!!!!!!!!!!". Fiquei radiante! Eu tinha pensado em chamá-la para comprá-los, mas acabei adiando a ligação...Há uns meses, eu tinha dito que queria, para os figos cristalizados do Natal...só não imaginei que ela lembrasse. Me criei com a Vó Léia fazendo dúzias deste doce para as Festas e para os presentes de final de ano. Eram peças exuberantes, com um quê de pedra preciosa - na forma, na cor, na superfície brilhante pelo açúcar cristal que cobre a fruta...
Não encontro as fotografias de seus feitos, nem peguei o 'como-se-faz' da Vó, apenas guardei na memória uma das marcas mais profundas dos Natais da nossa infância...São  tão vivos em mim os registros do aroma, do sabor, da doçura,  que atravessaram os tempos...Agora, confesso: eu não saberia como  reproduzí-los se não fosse pela Dona Lola. 

"Trouxe figos pra ti!!!" foi quase uma senha para o cofre das minhas primeiras lembranças: do cheiro da cozinha na casa da Vó na época de Natal, dos pacotes enfeitados com papel celofane, círculo de cartolina e fita vermelha, feitos pela mãe para as peças diamânticas...Tudo é pleno de vida neste período do ano, quando se trata de vivências de família. Parece que a Doceira adivinhou. 

 "Um cento e meio", ela disse, alcançando a sacola. Tive a nítida sensação de ser abraçada pelo aroma dos figos, naquele momento. Aliás, um abraço com o aconchego da lembrança. Dona Lola vende os figos já descascados, o que nos poupa da parte mais trabalhosa da feitura do doce. E ainda ensina a fazer!!!!

"Pra cada cento, usa pouquinho menos de 2 quilos de açúcar. Bota tudo junto na panela, os figos, o açúcar e a água que cubra. Deixa no fogo por pelo menos duas horas, até que fiquem macios. Em geral, 2 horas e meia, três horas, cuidando sempre. O mais importante é que, antes de tudo, tens que fazer uma cruz na base do figo, com a faca, que é por onde a calda vai entrar, pra ele ficar suculento por dentro. Quando prontos, tira da calda, escorre e passa no açúcar cristal"... Faço tudo como ela ensinou, com algumas mudancinhas...

Então, sento à mesa da copa, com a vasilha dos figos e uma musiquinha leve (em geral, Bossa Nova). Um a um, faço a cruz na base da fruta, com a faca, aprofundando para o interior nos dois riscos da cruz. Prefiro fazer paneladas de 50 figos com um quilo de açúcar e sim, 'água que cubra', mas coloco, junto, um cálice (dos de vinho branco) de rum e uma pitadinha de alguma especiaria (cardamomo, noz moscada). Quando o conjunto ferve, em fogo médio, abaixo o fogo pelo tempo restante. O tempo em média é de 2 horas e 30 minutos, 3 horas...Na última meia hora, quando eu vejo que alguns dos figos começam a ter um tom brilhoso e levemente translúcido, aumento o fogo até que a calda esteja no ponto. Deixo escorrer em uma panela grande, com uma peneira e, depois de uma hora, passo-os no açúcar cristal. O ideal é fazer de véspera, pois a reação do figo com o açúcar fica melhor com o passar das horas: este incorpora os cristais, o que favorece que a casquinha fique firme e contraste com o interior, carnoso e suculento.

Em seguida, as fotos do como-se-faz! 

Bom proveito, e um lindo dia de Natal!!!!!!!!!!!!!

Com carinho,
Betina


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Devaneando sobre "Hors D´oevre"...

Acepipes são minha perdição na cozinha...E, confesso, nos restaurantes também. Tenho encantos, justamente porque 'abrem' a refeição, despertam o paladar para o que vem a seguir...Nos livros de receitas, muitas vezes, inauguram as páginas, incitando o leitor a percorrer os capítulos, um a um, embalados pelo entusiasmo do início. E o que é 'Antipasto'- 'antes da refeição-, e 'Hors D´oevre'- 'fora da obra'-, para mim é a etapa primordial do prazer à mesa. A bem da verdade, é o despertar do apetite, pelo sabor convidativo dos quitutes da entrada, a provocação aos sentidos, o degustar sem-pressa de iguarias que nos surpreendem, demorando-se na boca. 

A escritora chilena Isabel Allende, no seu livro "Afrodite", faz uma bela abertura ao capítulo de "Hors
D´oevre", comparando esta etapa aos beijos e preliminares de um encontro amoroso. Pois acho que outra comparação válida seria pensar nas entradas como a vivência inicial de um relacionamento afetivo, em que o casal começa a conhecer os sabores e sutilezas entre si...em que a aproximação gradual vai 'abrindo o apetite' para o que segue, deixando ambos com a curiosidade e o desejo de prosseguir às etapas seguintes da relação. Este momento não deveria durar nem pouco tempo, que apressasse os  momentos vindouros, nem muito, que desanimasse os 'comensais' para o 'prato principal', o amor em essência. As entradinhas seriam, nesta comparação, a descoberta que um faz do outro, o mistério, a vontade de provar os vários sabores do antipasto/relacionamento.

Há um misto de entusiasmo e espanto, um desejo de provar de tudo, saboreando devagarinho cada elemento...No entanto, se permanecemos nesta parte da refeição, sem evoluirmos para as seguintes, desanimamos nosso paladar, antes desperto. Por quê? Bom, ao experimentarmos as entradas, sabemos que a seguir haverá algo intenso, consistente, e esperamos pelo prosseguir...quando este prosseguir demora, o estímulo aos sentidos fica atenuado, pois carece dos elementos 'novidade', 'surpresa', 'descoberta', 'curiosidade'. Custando a chegar o prato principal, começamos a repetir os aperitivos, e o sabor da longa espera cansa o paladar. De outro modo, uma entrada rápida demais, logo seguida pela refeição, deixa o comensal sem  a calma necessária para acordar o prazer aos sabores, e a pressa inquieta a etapa que deveria ser mansa, delicada, de aproximação.

Tudo tem seu tempo próprio de existir, e a graça é valorizarmos a duração de cada vivência: sem antecipar as seguintes, ou  sem alongar cada uma em demasia. 
Tempo, tempero e prazer em doses exatas, nas refeições e nos amores...

Com carinho,
Betina


sábado, 14 de dezembro de 2013

Aperitivo: visitando [Cozinha Mediterrânea], de Elizabeth David

Boa noite, Leitor!

'Antipasti' clássicos, em um restaurante romano

Ando na busca por histórias e novas receitas de aperitivos, entradinhas e especialidades...abrindo livros e revistas, passo a conhecer saborices incríveis nas páginas  de escritoras clássicas da culinária, como a inglesa Elizabeth David, a chilena Isabel Allende, a americana Irma Rombauer, a argentina Doña Petrona, e por aí vai...em cada livro, o capítulo de entradas abre os trabalhos, inaugurando o leitor na atmosfera da obra: em Afrodite, da Isabel Allende, o convite  é íntimo, tátil, e a autora traz o leitor com sensualidade e delicadeza para esta etapa da refeição.

 Tradicionalmente, o termo para os quitutes iniciais é 'Hors-D´oevre', que significa, simplificando a ideia ao máximo, 'fora da obra'; considera-se, neste sentido, que o prato principal é a 'obra', e a entrada, que vem antes, está fora dele. Em italiano, o termo 'Antipasti' refere-se também aos alimentos que são servidos antes de uma refeição composta pelo 'Primo Piato', pelo 'Secondo Piato' e pelos chamados 'contorni', que acompanham o conjunto. O termo 'Pasto' refere-se à refeição em si, que os aperitivos antecipam. Então, os quitutes inaugurais são considerados como elementos fora da refeição propriamente dita.
Entretanto, dependendo de nosso planejamento para uma reunião festiva, as entradas podem ser a oferta em si, e teremos que caprichar na variedade e na consistência para que contemplem o apetite dos convidados. Apetite pelo alimento e, mais ainda, pelo prazer de 'beliscar' comidinhas leves.
Lembrando: a primavera e o verão são estações excelentes pra propostas assim!
Mas digamos que estejamos mesmo preparando entradas para um jantar, ou mesmo para a Ceia Natalina, que vem chegando...O que você faria para surpreender?

Pois descobri hoje, num dos livros da Elizabeth David, [Cozinha Mediterrânea], uma receita que parece deliciosa, no capítulo de 'Vegetais': Cebolas Agridoce ('Onions Agrodolce'). Bom, o quitute não está incluído no setor das entradas, mas pode-e muito bem- ingressar nesta aventura, acompanhando torradinhas, queijos, outros vegetais...Para mim, este acepipe fez lembrar um chutney, pela qualidade agridoce e pela consistência que-imagino-tenha quando pronto. Veio à memória, também, a geléia de cebola  ('di Tropea'), que vi em receitas italianas, muito usada com queijos e fiambres.

Onions Agrodolce

O 'Como-se-faz'?

Coloque umas 25 cebolas pequenas, já descascadas, em uma frigideira com 3 colheres (das de sopa) de azeite de oliva. Assim que as cebolas começarem a 'amarronzar', derrame 1 cálice, dos de licor, de Vinho do Porto, 1 de vinagre, 2 colheres (sopa) de açúcar mascavo, uma mancheia de passas de uva, sal e pimenta Cayenna. Cozinhe em fogo brando, até que as cebolas estejam macias e o molho  adquira uma consistência espessa, de xarope.

Elizabeth David teve uma missão muito importante na culinária: a de traduzir culturas, sabores e idiomas para a cozinha inglesa. Tendo viajado por muitos países, em muitos dos quais morou, a autora conheceu e pesquisou a fundo suas tradições alimentares. A beleza do trabalho está não só em sua peregrinação, mas também no fato de que, através de sua escrita, levou este conhecimento aos ingleses, que muito pouco sabiam sobre o que comiam outros europeus. Tenho encantos por seu trabalho, de fato, e pretendo contar mais sobre a autora, a medida que progrida meu estudo sobre sua obra.

Por hoje, fico por aqui.
Um ótimo final de semana!

Com carinho,
Betina



sábado, 7 de dezembro de 2013

Folha de mussarela: de volta à folia!

E já que estamos falando em entradinhas, aperitivos e ect., lembrei de outro horizonte com muitos plurais, o rocambole de mussarela, especial para varias ideias...coloquei as dicas aqui no blog, ano passado, mas não vinha encontrando a folha de mussarela em Porto Alegre. Fiquei muito faceira hoje, ao visitar o Armazém 196, delicatessen que adoro.  Pois voltaram a receber a dita cuja! Nesta época do ano, de reuniões e Happy Hours, a folha é especial: de fácil preparo, rápida e muito versátil, cai bem com diversos recheios. Além do mais, fica alegre e colorida em uma mesa, dando um toque lúdico ao conjunto dos quitutes. Assim como no caso da bruschetta e da tartine,  esta folha recebe mil ideias possíveis, dando espaço à busca criativa e curiosa por ingredientes e suas misturas. No verão, vale para o aperitivo no pátio ou na sacada, como nas refeições 'alfresco'. E é uma ótima opção, tanto para entrada de pratos mais robustos quanto para uma mesa leve de quitutes, em que estes serão o personagem principal.
Bom, em breve conto mais sobre esta saborice! Por enquanto, invente você também!!

Com carinho, 
Betina

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Tartine: a bruschetta dos franceses?

Uma das saborosas diversões da pesquisa de quitutes para o blog é a pluralidade dos resultados. Estou encontrando textos deliciosos nos autores clássicos, como Irma Rombauer ("The Joy of Cooking"), Elizabeth David, M.F.K.Fisher...atravessando tempos e estilos, nas visitas à Isabel Allende, em Afrodite...e curiosando em blogs e sites, livros novos, revistas...Nas viagens pelas fontes de estudo, encontro receitas, porquês, Geografia e História, e por aí vai... E eis que, num destes 'passeios', surge uma bela explicação sobre o nosso assunto do post anterior: a 'Bruschetta'. 

" A Bruschetta
Esta saborosa iguaria italiana,
pouco conhecida no Brasil, saboreada em todo território italiano, nas mais diversas formas, tem sua origem na antigüidade entre os trabalhadores rurais, quando o pão era seu principal alimento e se constitui numa forma gostosa de se aproveitar o "pão velho", que sobra de um dia para outro.
Bruschetta

      O termo Bruschetta (pronuncia-se brusqueta) é originário das regiões do Lazio e de Abruzzo, derivada da palavra "bruscato" que significa tostado ou torrado, quer seja no forno ou na grelha. Há também outros nomes para bruschetta, como "Fetunta", na região da Toscana, aí derivado das palavras "fetta unta", isto é, fatia untada, no caso, com azeite de oliva.     A clássica bruschetta é feita com uma fatia de pão italiano rústico, de farinha escura e grossa, de casca dura, tostada na grelha, esfregada com alho, untada com abundante azeite e polvilhada com sal e eventualmente com pimenta-do-reino.
     Há, porém, incontáveis variações para se preparar uma boa bruschetta. Na Toscana, o pão local, feito sem sal é guarnecido com "fagioli al fiasco", ou seja, feijão branco cozido com ervas e alho ou então, com "cavolo nero", couve picado bem fininho e aferventado em água e sal.

     Como os pães italianos são diversificados, variando de região para região, a brsuchetta possui sabor e aparência com características distintamente regionais. Na Puglia e na Campania, por exemplo, é feita com um pão crocante, chamado "frisella" ou "frisedda". Na Calábria, Sicília e Basilicata, a bruschetta é feita com um pão comprido de semolina e sementes de gergelim, guarnecido com tomates, azeite e orégano.
     Embora certas guarnições seriam mais adequadas para determinados tipos de pães, pode-se garantir uma boa bruschetta, somente com um bom pão e um azeite de oliva de boa qualidade. A pimenta-do-reino moída na hora, também dá um sabor especial. Ainda, prefira tostar o pão na grelha, a torrá-lo no forno. Ele fica macio por dentro e com uma casca crocante externamente. Se usar queijo e quiser derretê-lo, coloque as bruschettas em forno alto, por alguns minutos, isto impedirá que o pão endureça.
    Pode-se até organizar uma festa, somente com bruschettas, utilizando-se quatro a cinco tipos diferentes, com sabores e cores distintas, acompanhadas, é claro, de um bom vinho.(...)"


Pelo que vi e soube, a versão francesa da Bruschetta é a Tartine, também com horizontes interessantíssimos a explorar...Encontrei dois sites franceses com boas dicas: Recettes de Tartines e monmenu.fr! E muito curioso fato: foi ao ganhar de presente um livro sobre quitutes franceses com pão, o "Croques et tartines", de Maya Barakat-Nuq, que despertei para essas entradinhas, vendo possibilidades bárbaras neste campo! O livro é pequenino, mais-que-de-bolso, e tem ideias que desmancham na boca...A partir dele, comecei a desvendar caminhos para reuniões festivas com aperitivos leves...fui tendo ideias...e ampliei a pesquisa, abrindo livros e cadernos em casa. Em cada um, novas receitas, origens, aqui-e-acolás, temperos, saborices...

Por hoje, deixo os links para pesquisa. No labirinto de leituras sobre o tema dos aperitivos, cada desvio é uma descoberta!

Com carinho,
Betina

Preparando ideias de Bruschetta: diversão garantida!!!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A cozinha de nossos tempos...

E então: pensou no nosso desafio de ontem? Pois bem, a ideia era exatamente estimular o 'click' de alguns dos aspectos da culinária de nossos tempos...e por quê? bom, porque esta se traduz em nosso como-se-faz, nos instrumentos que nos valem na cozinha, nas receitas que escolhemos, nos autores  que lemos, nos ingredientes que usamos, nos cenários que produzimos para os comensais, nos registros que deixamos-em fotos impressas ou salvas, Instagram, Facebook, Blogs e afins...Há muito o que contar, há muito o que refletir sobre o espírito da cozinha de nossos tempos; quanto mais a percebemos, melhor ela se expressa em nosso fazer culinário, em nossas escolhas alimentares, em nossas celebrações com amigos. 

Aplicando este 'espírito' à proposta das entradinhas e petiscos, eu arriscaria dizer que um dos personagens principais de um encontro festivo com quitutes é a 'Bruschetta' italiana, pela pluralidade que oferece, pela estética, pela provocação aos sentidos, pela comensalidade que ela traduz...e por tantas outras virtudes!

Pense em seus ingredientes favoritos...invente uma bruschetta... faça mágica...e partilhe! Amanhã já é quarta-feira, e o fim de semana está chegando: hora de fazer as compras para os preparos de cozinha!

Com carinho,
Betina

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Uma ideia puxa outra!!!

Coisas que acontecem aqui no "Serendipity in Cucina", em que uma ideia puxa outra, e outra, e outra...

Depois de escrever o post de ontem, fiquei pensando na frase: "Receitas medievais e outras com a vibração de nossos tempos."

          Na sua opinião, que aspectos caracterizam a culinária com a 'vibração de nossos             tempos', nesta segunda década do Terceiro Milênio? 

           Solte a imaginação, faça seu 'brain storm' e compartilhe conosco suas impressões!

                                                          Com carinho,
                                                              Betina

Ideias para festas de fim de ano!

Começando o mês de dezembro, esta semana inicio a postar as receitinhas e ideias para petiscos leves, especiais para as celebrações desta época do ano: festas de amigo secreto, brindes dos amigos e colegas, reencontros anuais, e por aí vamos...A proposta de pesquisar quitutinhos vem do meu gosto pessoal por preparos mais leves- e mais breves-para as reuniões comemorativas...e já que é um período tão atarefado para todos, com mil demandas no trabalho e outras mil agendas de tintins aqui e ali, a combinação do 'cada-um-leva-uma-coisa' torna o encontro cooperativo e lúdico, com  oportunidade a todos para a partilha.  Uma ideia para este tipo de evento é que cada um, além do feito culinário, distribua sua receita aos amigos (vi esta sugestão em um clássico da cozinha, o 'The Joy of Cooking', da Irma Rombauer), com a data do preparo: a cópia será o registro do encontro!
 Estou escolhendo receitas simples, menos laboriosas e  mais rápidas, na medida do possível, mas algumas, com certeza, vão escapar da regra.

Hoje pesquisei em livros de receitas contemporâneos e em outros, históricos. Pesquisei em um site de culinária da Toscana e em revistas...Encontrei desde uma torta de sálvia até um carpaccio de queijo pecorino, passando por uma bela musse de tomate e manjericão, para servir em taças...Receitas medievais e outras com a vibração de nossos tempos. Importante é que se possa adaptar os ingredientes, de acordo com nossas possibilidades e interesses. Aqui, escrevo só as sugestões, deixando ao leitor a tarefa de executar o processo ou de recriá-lo...

E vale lembrar: uma mesa colorida, com acessórios 'solares' e leves, ou com pratos de diferentes formas e tamanhos, dá o toque de alegria ao conjunto!

Até breve!

Com carinho,
Betina


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Entradinhas celebrantes!


Então, começamos a planejar as festas de fim de ano!  Amigos, quitutes, brindes, família, regalos, doçuras...tantas celebrações, que não faltam motivos para ensaiar uma nova receita. Uma não, várias! E este é o propósito: salpicar dicas d´aqui e d´acolá para os acepipes da estação. 
Dando a partida, o balcão de sabores, na foto, em duas ocasiões. Ando até procurando umas delícias 
d´além mar...
Não estou pensando na ceia natalina, em si, mas naqueles encontros de dezembro, com grupos diferentes de amigos e de colegas, para os brindes de fim de ano. Que tal mudar os planos: oferecer a casa e combinar um 'potluck', em que cada um leva um quitute para a partilha?

Ainda em pesquisa de receitinhas, em breve começo a postar aqui. Por enquanto, participe da proposta, separando as suas ideias e, quem sabe, inventando novos sabores!

Com carinho,
Betina

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Quitutes para as festas de fim de ano!!!

Numa pausa dos contares de gente de aqui e de acolá, hoje venho trazendo notícias. Acontece que estamos entrando em dezembro, mês cheio de comemorações, e percebi que o tempo urge! É preciso, nesta época, levantar receitinhas e ideias para as partilhas de final de ano!!!! E é o que vou fazer!!!

Muitos dos leitores já sabem do quanto gosto de bolar acepipes, quitutes, entradas para  os encontros festivos. Posso dizer, sem titubear, que é minha diversão favorita na cozinha. Sim, gosto de fazer doces, também, mas o prazer de criar e de descobrir entradinhas é único!

Então, comecei a selecionar receitas de vários livros de culinária da minha coleção. A ideia é transmitir o 'como-se-faz' de várias propostas, aqui no blog, neste mês de Festas. Claro, com o plano de realizar as indicações sempre esta ou aquela mudancinha, com esta ou aquela 'Serendipity' que nasce quando trocamos um ingrediente por outro...E sugiro ao leitor que faça o mesmo: que a partir do meu olhar, lance o seu ('O que eu colocaria no lugar do Funcho?'). Há receitas a serem traduzidas, há dicas a serem adaptadas. E há apetite e curiosidade pelo que descobriremos!

Em breve, começamos!!!

Você tem alguma receita para nosso propósito?

Com carinho,
Betina

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Dona Tereza, a merendeira!

Depois da lembrança dos bolos da Anilda e da Marli, fiquei pensando em outras pessoas que, nas minhas vivências, traduziram o amor pelo ato culinário. E veio, num flash, a imagem da Dona Tereza, a merendeira do jardim de infância!!! Claro, lembro pouco, muito pouco dela: tenho alguma memória de sua fisionomia. E de sua voz, quem sabe. Lembro que  vestia um avental branco, apertado pelo laço na cintura... era simpática, alegre, de um riso único...nas formas, parecia uma árvore frondosa, tinha aquela mesma força de raiz que vi na Dona Lola. E fazia sanduíches de presunto e queijo, com uma camada reluzente de manteiga! Não sei como me lembro desse tanto, mas quando hoje 'saltou' sua imagem dos registros, fui anotando o que eu era capaz de recordar sobre ela. Seu amor pela cozinha transbordava: tinha uma alegria natural no rosto, cada vez que nos entregava seus sanduíches, um por um. Não só a alegria: tinha um zelo especial, segurava seu 'rebento' com as duas mãos, deitando-o nas mãozinhas pequenas de cada criança. O amor era tangível, sólido como as fatias de pão; o amor ao fazer, o amor ao entregar seu feito, o amor ao ver-nos abocanhando a merenda. Chego a sentir o cheiro pleno da cena, em seus ingredientes. Sem a Dona Tereza, seria apenas um pão com presunto, queijo e manteiga. Por causa dela, merendávamos em festa, esfarelando todo o chão...!

Com carinho,
Betina


O 'Bolo de Melado da Anilda' e o 'Bolo de Cenoura da Marli': patrimônios da minha história pessoal!!!



Depois da escrita de ontem, hoje fiquei pensando em pessoas significativas na minha história de vida. Figuras que, assim como a Dona Lola, revestem de magia um sabor, um ingrediente, uma receita, pelo amor que transmitem no ato culinário. Bom, muitos dos leitores já leram sobre a Anilda, a 'personagem' do texto "Bhaskara no lanche da tarde", neste blog e no meu 'Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras'. Pois ela é uma destas figuras únicas! Convidada para o lançamento do 'Alfarrábio', em dezembro de 2012, e sabendo que havia no livro uma homenagem a ela e a sua receita, levou-me um belo exemplar de seu famoso 'Bolo de Melado da Anilda', para que eu partilhasse, com meus convidados, o sabor tão memorável pra mim. Ali estava, vivo e cintilante, o amor no alimento.



Naquela manhã dezembrina, senti a pulsação do bolo, vinte anos depois de prová-lo em uma das aulas da Anilda.

 O como-se-faz? Guardei no meu caderno de cozinha, este tempo todo!

"Desmanchar 500g de melado com 130g de margarina, deixar amornar; acrescentar a esta mistura 4 gotas de essência de amêndoa; unir 1 ovo; adicionar ao conjunto 1 1/2 colheres (das de chá) de cravo moído e 3 colheres (das de chá) de canela em pó; peneirar 500g de farinha de trig cin 5 colheres (das de chá) de fermento químico; adicionar 125g de castanhas picadas e 125g de passas de uva embebidas no rum. A massa deve assar por 30-40 minutos em forno médio. Quando pronto o bolo, polvilhá-lo com açúcar de confeiteiro ou pincelar chocolate em pó desmanchado no rum."

                                            ('Seguindo as Pistas', pg 79. 'Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras')


________________

E seguindo a prosa, pensei em outra pessoa muito importante em meus trajetos. Cozinheira de mão cheia, a Marli trabalhou em nossa casa por 26 anos, dos meus 10 aos 36 e, com certeza, deixou registros indeléveis na sua história com nossa família. Um deles é, sem sombra de dúvida, o 'Bolo de Cenoura da Marli', patrimônio culinário das memórias de infância e adolescência, tanto para mim quanto para meu irmão. Havia amor naquela massa, um amor que podíamos sentir na mordida mansa do quadrado de bolo, depois de um 'creck' na casquinha. Saboroso, de um laranja vivo, de um volume farto. Na forma, ainda quente, era alto, corpulento, perfumado, insinuando-se por toda a casa. Era nosso lanche da tarde, a escapadela da noite, a merenda no colégio, por muitas vezes. Claro, era saborosíssimo, mas tenho certeza: ficou pra história pelo amor com que ela fazia. Isto muda tudo. Para mim, muda a força de uma receita.
Há alguns dias, recebi dela o bilhete com o como-se-faz e- mais lindo de tudo- com a dedicatória ao final.

Então, aqui vai a partilha!

'Bolo de Cenoura da Marli'

1º Passo: 
"No liquidificador, colocar 2 cenouras médias, 4 ovos, 1/2 xícara de óleo e bater tudo, até formar um creme.

2º Passo:
Numa bacia, colocar 2 xícaras de farinha de trigo, 2 xícaras de açúcar  e 1 envelope de fermento químico.

3º Passo:
Acrescentar o creme do liquidificador e misturar tudo. Então, untar e enfarinhar a forma, e colocar a mistura completa da bacia. Pré-aquecer o forno por 10 minutos, em 180ºC. 

Quando estiver dourado, está pronto para servir. Fazer o teste do palito, fincando-o no bolo em sua profundidade, para testar se está pronto: se sair sequinho, pode retirar do forno (em média, 30-40 min.)"
Lembrei de outras gentes e de outras receitas pelo meu caminho, sempre emblemáticas do amor ao alimento e ao comensal, um amor vivo nos ingredientes da massa. Engraçado é que as autoras são tão parte do processo, que se tornaram até o 'sobrenome' da receita: 'Bolo d Melado da Anilda', 'Bolo de Cenoura da Marli!!!

Você tem alguma receita como estas em seu caderno, em sua história?

Amanhã tem mais!!!

Com carinho,
Betina


domingo, 17 de novembro de 2013

Voltando para a cozinha!!!

Depois de um bom período de correrias e de mudanças de vida, voltei à cozinha, neste mês de novembro.  Diz o escritor moçambicano Mia Couto, em um de seus contos, 'Cozinhar não é serviço. Cozinhar é um modo de amar os outros': na culinária, há vida na entrega, na disponibilidade para o preparo; há pulsação  nas palmas das mãos que tocam o alimento. Fazemos a comida com amor a quem a receberá. Com amor e com desejo pelo ingrediente.

E não  é sempre que estamos afinados com o ato culinário. A meu ver, muito depende de como estamos conosco. Por exemplo, tanto para uma viagem quanto para a cozinha, é preciso que façamos conexão com nosso tempo interno: um espaço subjetivo em nós, onde é possível o livre acesso ao mundo dos sentidos e dos sentimentos. Se chovemos ou ventamos, a conexão falha, pois este espaço quer nossa presença vibrante, atenta ao alimento. Para mim, é esta atenção, esta plenitude no ato de cozinhar que permite que o amor seja transmitido ao nosso preparo. 'Entrega' é a palavra de ordem: assim como o mapa deve guiar o viajante em seu percurso, na culinária o mapa é o conjunto de nossos sentidos.
 E este é o ponto: seja para fazer algo para oferecer a outros, seja pelo fazer em si, a cozinha requer  atenção e amor, pleno e irrestrito. Isto é possível apenas quando estamos disponíveis para tal, no campo anímico, afetivo, físico. Leia-se: vezes sim, vezes não.

Bom seria se pudéssemos fazer como a Dona Lola, 'estarmos ali, e pronto'. E ela clama: 'do resto a vida se encarrega!'. Não está nem no antes, nem no depois: está cuidando de seus doces, no exato instante em que lhes dá vida. Um amor incondicional, parece. Acontece que a Dona Lola é personagem, não é tão de-verdade assim: fosse de carne-e-osso, teria amor perene para dar??

Afinal de contas, temos nossas intempéries...

Neste post, refiro-me ao amor específico que colocamos na comida, mas saliento: na origem, está nossa capacidade de amar, de dar e de receber amor.

No meu sentir, esta capacidade resulta do espaço que criamos aqui dentro, para acolher o novo. Em épocas de revolução interna -em nossa rotina, trabalhos, relacionamentos, decisões-, a bagunça é tanta que as emoções saem do lugar, se desalojam; no movimento, esvaziamos campos em nós,  dando nicho ao desconhecido. O vazio é fundamental, permite que tomemos contato com nosso mundo interno, com nosso tempo interno. É quando surge espaço para o amor, aquele de nós para nós,  e então aquele de nós para o outro.

 E ali estão o ingrediente, a cozinha, a receita, o apetite, esperando para entrar em cena.

Na culinária, a entrega ao processo traduz-se na aproximação com o comensal, com o alimento, com a comida, com a partilha de nós e do que preparamos.

Por isto vim para a cozinha só agora: enxerguei o vazio corpulento, grande, vivo. Pronto para ser tomado por uma força maior, o desejo pelo ingrediente. 

E não é deste modo que começam as paixões?

Com carinho,
Betina

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Num sorriso largo...

Dona Lola hoje deve estar preparando os figos de novembro, para o final do ano...Quando chegar com a sacola de frutas, o que virá contando? Já é mais de quinzena que veio pela última vez, dizendo que não deixa ninguém se aproximar de sua cozinha, ciumosa que é das panelas...Quando está em silêncio na lida com os doces, permanece à beira do fogão com tal afinco que se torna, com ele, uma coisa só, absorta pela bruma desta largueza. 

Dona Lola tem força de raiz, já contei: sabe tudo do que vem da horta, do pomar, do quintal. Conhece, literalmente com a palma da mão, cada textura, cada cor assim ou assado de suas laranjas, abóboras e figos...E mais: se suas mãos não sentissem as frutas, seus olhos o fariam. Isto mesmo, ela aprendeu a tocar com os olhos, aprendeu a perceber cada nuance. É boa também nos cheiros e nos gostos, vê-se pela silhueta alargada...E se atenta, como ninguém, aos sussurros dos doces durante o preparo. É nesta atmosfera que a senhora se transforma, vivendo os sentidos em  plena expressão.

 Ninguém ouse chegar perto: é território mágico, onde só ela habita. É espaço onde se reconhece, onde volta para si mesma, onde a quietude mansa do forno-e-fogão acolhe suas inquietudes e sem-porquês. Ali, o cenário é personagem, também: cada colher-de-pau e cada caçarola têm vida própria. E ela, naquele terreno, não é a mesma que leva a sacola de frutas no portão, falante e ágil, quase bicho-carpinteiro. No seu campo, Dona Lola se permite um profundo e respeitoso silêncio, cala toda espécie de ideia ruim que lhe passa. Então, percebe os sentidos, sente a vida do pedaço de fruta, lembra-se de alguma história com aquele cheiro. Neste instante, o doce torna-se vivo graças à ela, e vice-versa: Dona Lola também se torna viva graças ao doce. Um é criador e criatura do outro, e esta é a força de sua união com o alimento.

Está ali, e pronto. 'Do resto, a vida se encarrega', ela diz, num sorriso largo.

Com carinho,
Betina

domingo, 10 de novembro de 2013

Os figos cristalizados da Dona Lola!

Era coisa de dois meses que a Dona Lola não passava pela rua com sua sacola de frutas para vender. Foi em meados de agosto que subiu a quadra melodiando seu 'Laranja pra doooooooce!!!', e chamei-a com pressa, que não escapasse. Peguei as laranjas, perguntando seu nome e tomando nota do contato, 'Pode me chamar se quiser mais das laranjas.', ela sorriu, seguindo:

-Mas tem que lembrar: laranja é só por agora, tá terminando...abóbora ainda faço, tá na época, mas lá por novembro vou trazer os figos pro Natal!
-Os figos!-eu vibrei, logo me recordando daqueles históricos figos cristalizados de fim de ano, da Vó Léia.
-Eu trago por novembro, tem muita gente que pede. Se precisar, avisa antes, que pode ser que acabe em seguida, é muita gente pedindo, sempre por agora...
-Pois vou aproveitar que a Senhora tá aqui, então...Como é que eu preparo? Quanto de figo pra quanto de açúcar e de água? Quanto tempo no fogo?
-Bom, para uma quantidade de uns 100 figos, usa 2 kg de açúcar e água que cubra o figo. Eu já trago sem a casca, tem só que fazer uma cruz pequeninha, com a ponta de uma faca, na base de cada um. Cobre com a água, deixa duas horas em fogo baixo e depois apaga o fogo e deixa duas horas os figos ali na panela. Quando ficarem frios, reveste com o açúcar cristal. Fazendo assim, ficam uma delícia, e bonitos!!!

Um sorriso cresceu em mim: reencontrar o 'como-se-faz' dos figos da Vó, assim de surpresa, foi um presente de afeto, de história, de mágica. Agradeci, pedi que trouxesse os figos logo que começasse a vendê-los este ano.

E lá se foi a Dona Lola, com sua sacola de laranjas, percorrer a rua. 
Quarteirão a quarteirão, faz de seu serviço um reviver das histórias de família, por onde passa. Uma avó que fazia assim, uma tia que fazia assado: ali está a Dona Lola pra contar como se prepara tal doce, que a gente nem se lembra mais. Na sua voz, uma força  perene: a fala tem um calor manso, bom de ouvir.

As lembranças cintilam no ouvinte como as frutas que, viçosas, ganham vida nas mãos da senhora.
Será este seu segredo?

Com carinho,
Betina

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Quem sabe...?

Eu vi que a Dona Lola espremeu a boca querendo dizer, mas guardou pra si. Daria alguma dica sobre o doce de abóbora, ou era pra murmurar suas crendices? Fofoca não era, que a doceira reservava pra si as observações que tecia devagarinho...Não contava a ninguém, mas sabia com quem prosear e com quem não trocar palavra. 

E foi assim que Dona Lola foi se apresentando, abóbora daqui, figos dali. No sorriso morno, se via: tinha um segredo nos olhos. 

A receita dos figos cristalizados de Natal? Trouxe há uns dois meses, tim-tim por tim-tim...E então eu vi: não era dos figos que tinha a dizer, nas suas entrelinhas. Falavam, nas redondezas, de suas simpatias e crendices, mas eu não ouvira dela nada a respeito. Bom, eu tinha uma impressão: era mágica que ela carregava nas sacolas de frutas. O não-sei-quê? Uma força telúrica. Uma força de raiz, isto sim.

Ainda é cedo para descobrir...quem sabe o caminho seja: "a cada doce, uma pista" ?

Agora é esperar sua próxima visita...

Em breve!

Com carinho,
Betina


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Dona Lola, nossa personagem...e outras notícias!

Pois a Dona Lola, na semana passada, voltou, que há mais de um mês vinha sumida. E trouxe, desta vez, não as laranjas pra doce, mas as abóboras em pedaços, já preparadas na cal. Recomendou: 'pra cada vinte pedaços de abóbora, um quilo de açúcar  e água que apenas cubra tudo, deixa ferver e abaixa o fogo; lembra de furar com um garfo, cada pedaço. Quando fica pronto? Quando estiverem macios, umas duas horas. E em novembro trago os figos para o Natal...'. Ela explica com o olhar distante, mirando ao longe suas caçarolas. Tem um como-se-faz tão instintivo que, para lembrar de cada etapa ou de cada medida, precisa ver-se plena no ato culinário, saber-se ali, viva no vapor inebriante de sua cozinha.

 Para mim, há um outro mistério na sua sapiência de forno-e-fogão, que ultrapassa as receitas que dá: Dona Lola tem um segredo, um não-sei-quê de personagem. Sim, tem algo pra contar, uma carta pra trazer. Tem uma chave, guardadinha na lida com os alimentos. Surge num repente e desaparece num plim. Afinal, pra onde vai? Acho que pra dentro de alguma história que ainda vou ler.

Que ela guarda um segredo...Ah, isto guarda!

E esta semana tenho novidades: visitei, em Gramado, o restaurante Bêrga Motta, no Ecoparque Sperry, que oferece Comfort Food! A experiência transcende a boa comida: é um alimento pra alma da gente! Essas e outras notícias aqui, neste mês de outubro...

Com carinho,
Betina

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

As artes da Dona Lola

Estou bolando o texto para apresentar aos leitores a Dona Lola, a senhora que prepara as frutas para doces e divulga seu trabalho pela rua. A bem da verdade, ela é uma heroína: prepara a laranja pra doce, trabalha a abóbora na cal, tira  a pele dos figos para jogá-los na calda e aprontá-los para as festas de fim de ano. E vende as frutas assim, esperançosas por doceiras de mão cheia que, logo logo, exibirão seus feitos na sobremesa ou nos regalos aos amigos. Sabe as receitas decor e salteado, ensina seu como-se-faz com dados exatos, é capaz de revelar truques, até. E sabe a época de cada fruta, fazendo propaganda de suas produções da estação seguinte. 

Há algo de especial na Dona Lola, um não-sei-quê de poção mágica...faz o trabalho pesado e é doce que só ela. Tem as mãos calejadas, isso tem, de mexer com as asperezas das cascas, da cal, da pele do figo, que queima. No entanto, é terna, atenta, engorduchada pelo tempo e pelas comilanças. E parece uma personagem: fosse uma, atravessaria páginas e páginas num silêncio comedido, percebendo nos arredores as mudanças que a vida faz. Conversa consigo mesma, no seu ofício; murmura, de si para si, devaneios e saborices,  amores recônditos, ventos incertos. Avermelha-se com as lembranças e com a labuta manual das laranjas, abóboras, figos..

...e não é que, por um destes encantos que não se pode explicar, dona Lola tem cara de doce?

Pois é dela que estou querendo contar, num próximo post.
Por hoje, fico por aqui.

Com carinho, 
Betina


O doce feito com as laranjas oferecidas pela Dona Lola!

domingo, 22 de setembro de 2013

A Primavera na mesa da copa...!


Bom dia, Queridos Leitores! 

Pois bem...tive meu inverno da escrita: as palavras hibernaram nas últimas semanas. E agora, chegada a Primavera, estão abrindo a porta de casa, as janelas, ocupando a mesa da copa, devagarinho. Estão recém acordando, não façamos alarde, falemos quase em sussurro. Há muito o que contar, há muitos devaneios só esperando que o cheiro de café tome conta...

Em retrospectiva...fiz o pão de azeitonas Azapa, queijo Pecorino e funcho, ficou bom, mas muitos retoques devem ser feitos até que a receita possa ser escrita com precisão: mais do queijo, menos da azeitona,  em busca de um equilíbrio prazeroso. Não alcançou, por exemplo, a vivência pulsante do pão de salame e funcho.

E houve a tarde da Dona Lola, nome fictício que atribuí a uma senhora valiosíssima, aquela que passa pela rua onde trabalho, vezes, bradando "Laranja pra doce???????". Quase uma personagem, merece um texto especial.

Tantas outras foram as notas disso ou daquilo, nestas três semanas de ausência. Estive em Gramado, na Serra Gaúcha, e me propus a desvendar outros cenários nos lugares já conhecidos. Como assim? Cheguei na cidade com olhar inédito, sabores em branco, feito a página da caderneta em que escrevi minhas impressões. E percebi como, de fato, a descoberta está na disposição para encontrar o novo, mesmo em paisagens já tão nossas.

Temos muito a conversar!!

Uma Feliz Primavera!!!

Com carinho,
Betina


sábado, 31 de agosto de 2013

A Nova Aventura do Pão: Azeitonas Azapa, Pecorino Toscano e Funcho!

E, no embalo do Pão de Salame e Funcho deste mês, decidi arriscar! Comprei os ingredientes hoje à tarde e estou começando o preparo de uma nova aventura: o Pão de Azeitonas Azapa, queijo Pecorino Toscano e Funcho, nos moldes do anterior...

Vejamos...Prometo que conto tudo depois, aconteça o que acontecer! 

Bom sábado!

Com carinho,
Betina

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Oficina Sensorial- "Cozinha Perceptiva: as tramas do sabor"


Pois aqui apresento algumas fotos das edições da oficina sensorial que ministrei neste agosto, em Porto Alegre, RS, envolvendo a aplicação de mantas de tricot customizadas, criadas e produzidas pela artista Jussara Pereira para a atividade. O trabalho envolve a percepção sensorial, a compreensão do sabor como trama de sentidos e a relevância do conceito de 'Mindfullness' como atenção ao presente nas atividades cotidianas e no simples 'saborear'. Há muito o que contar, então vamos aos pouquinhos! Compartilho, abaixo, as imagens da merenda e das mantas, personagens principais do projeto, em sua edição de inverno.

Com carinho,
Betina
Merenda da oficina sensorial, em 24 de agosto!!!
O Pão de Salame e funcho!!
As mantas de tricot, feitas por Jussara Pereira para a oficina!
As mantas, em detalhe
Detalhes da Merenda: atenção aos sentidos!
Primeira oficina sensorial, em 03 de agosto!