segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Espetáculo!



 A receita torna-se viva quando nos dedicamos ao seu preparo. Quando somos nós, ali, à beira do fogão, os responsáveis pela liga dos compostos, pelo prazer dos convidados, pela harmonia entre cores e formas sobre a mesa.
 Quando somos nós os autores, os ingredientes tornam-se personagens de nosso projeto... Mas que ironia: eis que, num vento súbito, tudo muda: eles surpreendem-nos com resultados inimagináveis nos sabores, nos aromas, nas texturas, nos sons, nos tons. Éramos os autores, até ali: agora, os elementos é que são autores, diretores e personagens da cena. Tornamo-nos expectadores, meros expectadores deste processo, aprendemos a esperar o tempo que precise pela performance em cena, sabemos que a 'peça' tem seu ritmo específico, que independe de nós. Somos, ao final, maravilhados com  o efeito das misturas.
Por isto, percebi: no caderno, os ingredientes devem apresentar-se em letras iniciais maiúsculas. São, sim, personagens do enredo culinário, de nomes próprios e tudo...

As histórias a contar são muitas, e desconhecemos os finais. Há que se entrar na cozinha, vestir o avental, e deixar que a receita apresente seu espetáculo!

Abraço,
Betina Mariante Cardoso



Votos para o novo ano!



        Vi esta imagem e achei uma graça! Que 2013 seja assim, alegre, pleno de vida, de novos passos, de harmonia numa dança leve! Que esteja presente o sentimento de "ser criança brincando", no trabalho, no amor, na cozinha,  nos encontros com amigos, e até mesmo nas adversidades. Que tenhamos tempo para o lazer! Que venham os piqueniques, as conversas em volta da mesa, as novas receitas, os ingredientes desconhecidos, os próximos projetos, as viagens, as leituras, os silêncios. Sempre com o encanto da descoberta. Que, dia a dia, possamos treinar o equilíbrio e a confiança sobre nossos próprios passos - felizes quando acertarmos ou rindo de nós mesmos nos tropeços.

                              E que a dança seja um estado de ânimo.



Felicidades a todos os amigos e leitores em 2013!!!

Muito obrigada por serem parte essencial deste blog, estimulando, lendo, levando as

 receitas para o forno!

Abraços,

Betina Mariante Cardoso



Fonte da imagem: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=441888029212274&set=a.186993518035061.46208.182750558459357&type=1&theater



domingo, 30 de dezembro de 2012

'Manjericão e Pecorino', uma pastinha versátil!

1) Manjericão e Pecorino
2)Manjericão-Pecorino
 + 'Cream Cheese'
 Bom dia! Nesta postagem, as fotos do preparo da minha pastinha de Manjericão com Queijo Pecorino, do post 'Da descoberta do Pecorino'.
Abro todas as janelas da casa: que entre o sol!

Pra começo de conversa, trabalho no Manjericão escutando uma boa música, que dê ares de brincadeira de criança ao feito culinário. Rasgo as folhas em pedaços que se façam sentir na mordida-nem tão pequeninos, nem tão grandes. A etapa seguinte envolve ralar o Queijo Pecorino, para que, então, chegue o tempo da reunião dos compostos.

Com as mãos, misturo os dois ingredientes, como na primeira foto (1). Adiciono ao conjunto dois potes de 'Cream Cheese', misturando-os bem  ao Manjericão-Pecorino com a colher (2). A consistência é brilhante, mas ainda rugosa, e se vê tantos os pedacinhos da folha como do queijo: neste ponto, o amálgama está feito, mas falta suavidade à pastinha. Por fim, adiciono de duas a três colheres (das de sopa) do Creme de Leite Fresco (tipo Nata), para propiciar a realização do aspecto  cremoso e manso da receita, como na última imagem(3). Neste ponto, um cuidado é essencial: que seja mantida a firmeza, o que se testa colocando a pastinha na torrada e verificando que não deslize, que permaneça como foi posta. Esta tenacidade é dada pelo efeito entre os elementos, e principalmente pela quantidade exata da Nata: é ela quem 'dita' quando a receita está pronta.

Tempero com sal, azeite de oliva e, vezqueoutra, Pimenta Calabresa em flocos, só para dar uma leve sombra picante ao resultado final.
3) Manjericão-Pecorino,
'Cream Cheese' e Nata

Está pronto!!! Sirva com torradinhas, Tomates-cereja partidos à metade, crudités (cenourinhas, aipo, rabanete), e o que a imaginação mandar!!!

Gracias pela visita!
Bom domingo!

Abraços,
Betina Mariante Cardoso


sábado, 29 de dezembro de 2012

Pequena 'Pizza' Caprese!


 Outra possibiilidade, com os mesmos ingredientes do post anterior, é usar uma só fatia de Pão para torta fria, passando sobre ela o creme de leite fresco e dispondo, em bagunça feliz, o Manjericão, os Tomates-Cereja picadinhos e os pedaços irregulares da Mussarela de Búfalo. Tempero, aqui também, com Sal, Azeite de Oliva e Pimenta do Reino.
 Levo ao forno, até que o queijo esteja levemente derretido, e o pão com aspecto dourado e crocante.

(É importante untar a forma.)

O resultado é uma 'pizza' rápida, simples, mas muito apetitosa e informal. Boa ideia para preparar  numa jantinha de improviso com amigos, como entrada do prato principal ou acompanhando outros petiscos.Bom Proveito!


Abraços, Betina Mariante Cardoso
                                                                         


Pelo entusiasmo dos convivas!!!



Pois este sanduíche é feito tal qual o de Presunto de Parma com Alcachofra, que postei ontem. Aqui também prefiro o pão de torta fria que se assemelha ao Pão de Miga argentino, como salientei naquela postagem. Tempero com Azeite de Oliva, Sal e Pimenta do Reino (esta sobre a Mussarela de  Búfalo). Aliás, a gramática manda que chamemos Mozarela, como está no meu "Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras", mas tenho visto, em algumas publicações culinárias, 'Mussarela', forma que ganhou minha simpatia...
Procedi do mesmo modo ao sanduíche anterior, passando o Creme de Leite (Nata) sobre cada fatia. Coloquei o Tomate-Cereja em rodelas sobre uma, o Manjericão sobre outra, temperei, e sobre as rodelinhas coloquei fatias irregulares da Mussarela, finalizando com a Pimenta. Fechei o quitute, deixei-o pelos mesmos 60 minutos repousando para acostumar os sabores à convivência, e levei ao forno (10 a 15 min, ou até que esteja dourado, crocante). O Queijo, levemente derretido e quente, o sabor refrescante e apimentadinho, a crocância feliz do conjunto: um belo petisco para oferecer numa travessa branca, que destaque as cores alegres dos ingredientes! Sugiro servir assim que tirar do forno, pois o entusiasmo dos convivas aumenta sobremaneira!!!

Bom Proveito!!!

Abraços, 
Betina Mariante Cardoso









Saladinha de Verão...




  E então, com o que sobrou do Presunto de Parma e do vidro de Alcachofra, bolei esta saladinha, acrescentando tomates-cereja partidos na metade. Bom, não se deve misturar muito os elementos, pois desmancham mais do que devem quando mexemos, mexemos, mexemos...O aspecto final é o das fotos, e o sabor é manso, e traz, junto à combinação da alcachofra com o Parma, a refrescância adocicada do tomatinho. Escolhi uma taça transparente, para porção individual, em que a receita fosse exposta em sua leveza, para cada convidado. As cores calmas do conjunto, a consistência macia dos ingredientes, os sabores em contraste: todos os personagens de uma receitinha de verão.

E, como escrevia a Vó Alda,

FIM

Abraços, e bom proveito,

Betina Mariante Cardoso


Triângulos de Parma e Alcachofra, tostados!


 Lembram de quando contei sobre o sanduíche de Presunto de Parma com Alcachofra, em 'Um Paradoxo Irresistível"? Pois foi um dos meus treinos neste Natal, com alguma mudancinha...Depois de montado, conforme as fotos na lateral, levei ao forno, por em média 10 a 15 minutos, até que ficasse tostado. A crocância se percebe na textura do pão, com aspecto dourado leve e com ranhuras visíveis...No interior, a mansidão da alcachofra, suavemente ácida, contrastando com o viço rústico do Parma, disposto em fatias finíssimas. Há um contraste entre os sabores, um paradoxo entre as consistências do pão tostado, por fora, com o recheio macio, por dentro.
 O pão de torta fria escolhido vem em fatias finas, e lembra o Pão de Miga argentino (e quem conhece o dito-cujo, sabe o que significa mordê-lo tostado...). Em cada fatia de pão de torta fria, sem casca, passo uma fina camada de creme de leite fresco (tipo NATA); nas duas fatias, deito o Parma, cobrindo toda a extensão de uma e da outraUso, em média, 2/3 do conteúdo de um vidro de corações de alcachofra, corto em fatias fininhas e 'despedaço' cada uma, formando uma camada por sobre o Parma.
  Fecho o sanduíche, pressiono levemente, deixo repousar por, em média, 1 hora, para permitir que os 'temperamentos' dos compostos se acostumem um com outro. O efeito é harmônico e, ao mesmo tempo, vibrante. Quando saído do forno, corto-o em triângulos, servindo numa travessa informal. O resultado é, tal como o sabor, elegante e despojado, e muito apetitoso!    
Além de tudo, o preparo é absolutamente lúdico, prazeroso em cada   etapa, e indico fazer a receita ouvindo uma música animada na cozinha.
 Sugestão: uma boa ideia para oferecer como entradinha de um jantar com amigos!
Outro ponto: ainda que os triângulos fiquem irregulares, inspiram uma bela descontração na mesa de bate-papo, com sua bebida de preferência, antes do prato principal! Pode-se, também, optar por servir apenas petiscos, como no meu 'Queijos e Vinhos de Verão', ou  planejar um estiloso piquenique de final de tarde. Em ambos, este sanduíche é uma ótima pedida!

Bom Proveito!
Abraços,
Betina Mariante Cardoso



















             






                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                          

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Do cozinhar...


Recebi a citação pela amiga e colega Bianca Marques, e decidi compartilhar aqui no Blog, pelo significado profundo que traz. Que lindeza!

Gracias pela visita!

Abraços,
Betina Mariante Cardoso

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Pelo ponto ideal....!


No último final de semana, fiz outra vez minha chimia de tomates, que- então lembrei- aniversaria no Natal. Para chegar ao ponto da fotografia, precisei de doses extras de foco, paciência, perseverança, atenção ao momento presente, empenho, amor, pulsação. Sim, sempre necessito dos ditos atributos na cozinha, mas parece que desta vez  fui ostensivamente afrontada pela espera...

A demora em aprontar-se testou meus esforços, físicos e emocionais. Desejava oferecer a chimia na mesa de quitutes...No entanto, fui percebendo, enquanto dava os giros com a colher de pau, que talvez levasse um tempo impraticável para ela ficar viçosa, macia, 'carnuda', de cor grená e de consistência vigorosa, como deve se vestir para a ocasião. Tudo o que eu poderia fazer era mexer, mexer, mexer. E esperar, esperar, esperar. Era essencial o investimento, o 'estar ali', mas era também preciso ter calma, saber que a receita tem seu tempo próprio, que não adianta apressar a liga entre os compostos. Há uma química que viceja, uma força tamanha  entre os elementos, mas devem 'acostumar-se' um ao outro na panela para formarem um laço  forte, constante,  cujo resultado é o sabor que perdura. Não o sabor de um ingrediente ou de outro, mas da vida entre eles.

Não se pode aligeirar o ponto ideal. Desejamos que o efeito esteja de acordo com nossa expectativa, mas devemos fazer por onde, mexer o conjunto com vontade, com afeto, investir na ação. E esperar. A espera é também uma ação, que ocorre dentro de nós. Decidimos aguardar o 'ponto' certo da chimia, sabendo que é preciso persistir até aparecer o fundo da panela. Mais ainda: até a colher encontrar resistência pelo corpo da mistura, exuberante e tenaz.
A decisão de permanecer ali, trabalhando com calma e leveza para o propósito, é - simples assim-uma atitude de entrega ao tempo da receita.
De entrega ao tempo de tantas outras vontades.


Um abraço!
Betina Mariante Cardoso

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Vivências no 'como-se-faz'!

Então, como foi o Natal? 

Por aqui, novas receitinhas experimentadas, curiosices passadas a limpo no caderno de cozinha,registros fotográficos das peripécias e...O que muito me alegrou: leitoras colaboraram com o blog, contando as tradições culinárias de suas famílias nas Festas!

Pedi autorização às colaboradoras para apresentar aqui no 'Serendipity in Cucina' seus relatos, pois, além de as receitas parecerem muito saborosas, há o encanto das vivências nas entrelinhas do 'como-se-faz' de cada uma. Afinal de contas, o 'Faço-assim, faço-assado' é o contar de uma história, e o narrador transporta, para o registro, ingredientes, 'modo-de-fazer' e detalhes que só ele conhece, em primeiríssima pessoa. Isto é precioso!

Então, por apreciar tanto esta riqueza que há nas conversas de forno-e-fogão, resolvi compartilhar o retorno que as leitoras deram à pergunta do post anterior: 'E sua receita de Natal, qual é?', trazendo as respostas para que os demais leitores sejam partícipes desta prosa de cozinha. E para que  tragam também seus contares, em próximas ocasiões.

Esta colaboração inaugura um projeto meu para o Blog, previsto para o novo ano: a interação com os leitores, através de suas histórias e receitas culinárias. No entanto, essa é uma outra postagem, para os próximos dias. Por hoje, as participações especiais!

Registro da amiga e leitora Vânia Rita Grazziotin, da receita de Natal de sua família:

"A receita de Natal de nossa família é Rigatoni alla Romana, mas preparado por meus pais.

O macarrão é cozido al dente e escorrido.Cada macarrãozinho é recheado com um pedaço

de queijo mozzarella, cortado em palitos quadrados, colocado lado a lado e cada camada

 regada por um molho especialíssimo de frango com molho branco, creme de leite e queijo

parmesão. Vai ao forno gratinar até derreter o queijo dentro do macarrão. Dos deuses."


 E complementa...
" A receita  é de minha mãe Lelita Merlo Grazziotin. E ela e o meu pai Clarice Grazziotin
preparam juntos para as festas e almoços especiais. Um abraço e Feliz Dia de Natal."


Registro da amiga e leitora Maria Salete Martins, de suas especialidades...

 "Querida...um dia te passo a receita do meu filé, recheado com bacon e muzzarella,

complementado com molho ferrugem e cogumelos frescos... e ainda tem a salada de

aspargos com ovos e laranja, temperada com yougurt e maionese, completadas pela torta

 gelada...essas não posso deixar de fazer para a minha turma... beijosss"


Registro da amiga e leitora Graziela Becker Cunha, de uma fabulosa sobremesa de Natal...

"A minha receita de hoje é muito simples. Tirar um miolo de um panetone grande,
completá-lo com sorvete -uso de creme ou flocos-, colocar a "tampa" e levar ao freezer.
Tirar uns 45 min antes de servir e colocar por cima uma calda de chocolate derretido com
creme de leite e algumas cerejas. É simples, mas fica uma delicia! Um ótimo Natal para vc
e um ano novo de muita felicidade e saude!!"


Agradeço imensamente às colaboradoras, tanto por terem contribuído com seus relatos, quanto por terem autorizado a publicação de suas receitas no blog. Gracias!!!
Meu sincero agradecimento, também, à Sra. Lelita Merlo Grazziotin e ao Sr. Clarice Grazziotin, por autorizarem a divulgação de sua Tradição culinária nestas páginas. Tive o privilégio de conhecê-los na minha viagem à Passo Fundo, no último novembro, e fiquei encantada em saber que preparam juntos a receita de Natal, tempo após tempo. Esta trajetória ilustra meu sentimento em relação às histórias do 'como-se-faz': a realização de uma receita por um casal, através das épocas, conta da vivência de companheirismo, de amor e de constância deste laço. Através de um prato que constroem juntos, para as celebrações, compartilham com os convidados não só o sabor, mas todo o simbolismo deste fazer a quatro-mãos.

Desejando que todos tenham tido um belo Natal, deixo aqui meu abraço!


Betina Mariante Cardoso

sábado, 22 de dezembro de 2012

Na Mesa de Natal


E por falar no meu caderno de receitas, aqui está! Nele, minha receita da torta de maçãs com castanhas-do-Pará, recheio e cobertura de doce de leite e castanha-do-Pará: minha Torta de Natal, desde um sempre. Nos meus receituários de cozinha, permaneceu fiel esta memória, sendo feita e refeita. Posso lembrar da Vó Léia ensinando os primeiros passos, o 'faz-assim, faz-assado', posso lembrar das vezes em que repeti, tim-tim por tim-tim, aqueles ensinamentos. E tornou-se minha receita de Natal, clássica por tempos.

 A receita 'da gente' é algo que nos identifica, nos carimba, todos sabem que é 'nossa': 
                                                      -Vais trazer tua torta de maçãs com castanhas?
                                                      -Claro!

Há uma familiaridade entre o sujeito e sua iguaria, um afeto profundo entre ele e a receita que leva seu nome. Na Ceia de Natal, por exemplo, tínhamos o 'Bolo de Natal da Vó Léia', a 'Ambrosia da Vó Alda', 'A Torta de Palmito da mãe'...E assim por diante. Quitutes, doçuras, pratos principais: na mesa, a presença de cada um por sua colaboração, por sua alquimia tão especial. Somos nós, ali, na delícia que levamos para a partilha.
                                                   

E sua receita de Natal, qual é?

Betina Mariante Cardoso

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Um pedaço de bolo!!!

Fotografia por Évelyn Bisconsin, designer



Meu caderno de receitas...
 E meu caderno de receitas foi lançado na última segunda-feira, 17 de dezembro, como tantos sabem. O 'Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras' nasceu mesmo como um caderno, foi concebido para servir à partilha com os leitores. Na cozinha ou na copa, proseando ou lendo receitas, trocamos histórias, emoções, lembranças, receitinhas de família, de outros pagos ou novinhas em folha.

E foi por isto que quis levar adiante o projeto, para dividir com amigos e leitores, e com pessoas significativas na minha vida, estas vivências...Dividi-las na forma como sinto a cozinha: na atmosfera de um caderno de receitas, mesmo, pleno de sabores, manchas, de pulsação. Nos textos, registros que trazem o 'como-se-faz' dos que atravessaram meus mapas, mas que também inspiram reflexões sobre papéis deste ou daquele ingrediente, deste ou daquele sabor ou modo-de-fazer.

O bolo de melado, para os convidados
Do meu caderno há uma mancheia de conversas para os próximos dias...Hoje há algo especial a contar. Da celebração-lançamento, agendada para começar às 10hs e encerrar-se às 20hs, muita gente querida participou, gente que é parte do projeto, das leituras do blog, da minha história, das minhas aventuras culinárias pelas épocas. A presença de cada um tocou-me de modo único, carimbando na memória o carinho  por compartilharem comigo a ocasião. Amigos importantes no trajeto, que não puderam estar presentes, torceram e vibraram, e estavam ali representados pelas memórias de que fazem parte.
Dentre os presentes, quero destacar uma cena que me emocionou. Referi, no post 'A Culinária: labirinto de experiências', que tinha conseguido convidar a Anilda para o lançamento (a personagem do texto 'Bhaskara no lanche da tarde'). Pois ela foi!! Chegou no Empório Mercatto em torno das 10 da manhã, munida do seu 'Bolo de Melado', para que eu o oferecesse aos convidados!!!  A cena foi inesquecível, pois trouxe a 'receita viva', pelo bolo, do afago, do aconchego e da alegria que a Anilda representa em minhas lembranças.

 A mesma felicidade com que ela oferecia o bolo e a limonada, ou chá, ou água, durante as aulas, acolhendo em sua casa as angústias matemáticas, veio naquela manhã: uma felicidade própria da Anilda, propiciando um sabor festivo aos meus convidados, no amarelo-risonho da receita. 

Quando provei o dito-cujo, 20 anos depois da experiência que deu origem ao texto, voltei no tempo. Foram segundos suspensos, silenciosos, em que aportei lá, na sala de jantar onde tinha as aulas, e senti o mesmo gosto antigo do bolo que acolheu minhas inquietudes naquela tarde de dezembro de 92. Estava reencontrando um personagem da minha história, e, mais legal ainda: este personagem foi desempenhar, novamente, um papel de alegria e afeto, num novo cenário. Um cenário de comemoração, de entusiasmo, de partilha, de alegria.

Tudo o que a Anilda traduz no seu jeito de ser!

Meu sincero agradecimento a essa Amiga e Profe querida, por fazer mágica, trazendo um pedaço de lembrança para participar da festa, gerando novas conversas!!

Abraço, 
Betina

E a Anilda!!!!



quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Contando, pouco a pouco!!!

Bom, venho contando, aos poucos, de como surgiu o livro, dos caminhos paralelos durante sua gestação, das descobertas e bagunças felizes que  a escrita de cozinha vem trazendo à minha vida. Tudo começou porque desejava compartilhar, com os amigos, minhas inventices culinárias, aquelas receitas que fazia para as festas, jantares, despedidas de equipe durante a Faculdade, encontros do período de residência, sem contar as peripécias que fazia na escola, como a que conto em 'Novas Façanhas da Nega Maluca"...

Há alguns meses, uma amiga e colega de vida escolar lembrou dos chocolates que eu levava para 'vender' no recreio, lá pela sexta série! Ela referiu que aguardava, ansiosa, a chegada do intervalo, quando seria possível  comprar este ou aquele. Lembro até hoje do cheirinho do pote dos chocolates, mas não contava com um depoimento feito este, que muito me lisonjeou! E felicíssima fiquei com a lembrança de uma colega dos tempos do Hospital, perguntando se no livro estaria a receita da minha Nega Maluca, bolo que levei em uma celebração de final de estágio, durante a graduação. 

Cozinhar, perceber sabores, sentir o prazer de um gosto: tudo isto sempre foi um alinhavo entre uma época e outra de minha história. 

Assim, os escritos surgiram porque eu desejava partilhar minhas receitinhas, traduzir minhas vivências em crônicas de cozinha que nos tornassem comensais. Desejava falar do simbolismo dos tomates, para mim, no texto sobre a 'Chimia de tomates', ou revisitar a profunda descoberta sobre o Manjericão, em 'Manjericando', e tantos outros horizontes. Entretanto, um livro apenas com meus textos não me era suficiente, não era bem o que eu tinha imaginado. Como fiz, inicialmente, para realizar uma partilha com amigos, imaginei que o projeto pudesse contemplar o leitor em seus avanços de forno-e-fogão, suas memórias, seus registros do 'como-se-faz',  próprios ou de família. E tal como o meu caderno de receitas é essencial no meu caminho, desejei que o leitor tivesse também o seu, e veio a ideia de fazer um livro que tivesse cara de caderno, com espiral e tudo! Há muito mais de caderno no trabalho desenvolvido, mas não vou estragar a surpresa dos leitores contando o que há. Em seguidinha estaremos com ele em mãos!!!


Pedi à Évelyn Bisconsin, designer que criou o projeto gráfico do livro, traduzindo minhas mirabolantes ideias em imagens, que escrevesse um texto para o Blog. Convidei-a  para  que contasse de seu processo de criação na elaboração do 'Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras". Considerei fundamental que ela pudesse falar do que sentiu, de como vivenciou, das mudanças de planos ao longo da trajetória...Enfim,  do que imaginou para este projeto. Em janeiro, o texto chega!

Abri o campo da expectativa, a partir dos leitores do blog: o livro, que foi pensado para destinar-se aos amigos com quem vivenciei sabores, então seria destinado também aos novos amigos, comensais na leitura dos textos de cozinha, partícipes do sentimento culinário. Abria-se o leque.

E por falar em sentimento... Há o papel da subjetividade na cozinha, o que esta nos faz sentir, o que aprendemos com ela, quem somos dentro de seu espaço-tempo. Por que cozinhamos?  Que atributos adquirimos com a vida culinária? Foi pensando nestas questões que escrevi boa parte das crônicas do livro e deste blog. 

Construir um projeto é uma tarefa longa, plena de idas e vindas, mudanças de rota. Não se pode ter pressa. Há que esperar cada tempo amadurecer. Assim como preciso que o pão descanse trinta minutos a uma hora, para  que seu tamanho dobre e eu então possa levá-lo ao forno, também preciso esperar que as etapas de um projeto se completem, naturalmente: nada tenho a fazer senão seguir obstinada em meus objetivos,  desejando que cada ciclo cumpra sua parte. Aprendi, com a cozinha, a ter a paciência necessária com o percorrer espontâneo de um caminho, no ritmo da maturação. Sem correrias.


Então, no livro, compartilho minhas histórias, receitas e reflexões, deixando o espaço para que o leitor comece, ali, os seus registros....!!!

Bem-vindos!
Abraço,
Betina

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A Culinária, labirinto de experiências...


Uma das surpresas que a escrita do blog e a preparação do livro me trouxeram, ao longo deste ano, foi a possibilidade de reencontro com figuras muito queridas e relevantes na minha história, justamente para escrever as histórias daqui... Por exemplo?  Escrevi para a Rosanna Genovese,  proprietária do Rellais dell´Ussero em Pisa, para pedir a receita do Budino di Riso, clássico dos meus cafés-da-manhã da quarentena... Então veio o e-mail para a amiga e colega Donatella Marazziti, para pedir o 'como-se-faz' da torta de ricota e damascos que preparou quando a visitamos para um almoço de domingo, no interior da Itália. Guardei ambas as receitas para o livro, que será lançado na próxima segunda-feira....Pedi para a amiga Valéria  a receita da Impignolata, fornecida por sua sogra italiana, por ela ter levado este quitute  na nossa reunião da belíssima festa da Luminara de Pisa. Reservei para o livro, também...

Todos estes passos foram acontecendo em paralelo, à medida que o "Serendipity in Cucina" tomava forma e, aos poucos, fornecia elementos para o "Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras". Fico pensando que, enquanto as memórias e saborices se construíam por aqui, nos escritos, em mim ocorria também um movimento de reconstrução, de revisita a personagens muito presentes em diversas épocas minhas. As buscas para encontrar as receitas e seus percursos traziam para meu horizonte pessoal muitas reflexões, giros, reencontros com gentes e com a Betina de outros tempos. 

Fiz contato com  a prima Carmem Lescano, que tinha, guardadas, as receitas escritas pela Vó Alda, datadas e com seu toque, ao completar o modo-de-fazer: o "Fim", cheio de delicadezas no 'F', no 'i' e no 'm'...E recebi as folhas com a letra da Vó, para colocar no livro!!! 

A maior parte destas vivências vim compartilhando nos posts, durante o ano. Assim, o blog me impelia às pesquisas, aos encontros e aos contatos para a organização dos materiais. O resultado, em geral festivo, me trazia de volta para cá, a compartilhar com os amigos e leitores o que esta ou aquela receita me proporcionara, com quem falei, a receita que recebi, o sentimento pela revisita com pessoas queridas.

Duas das tentativas foram frustras. A primeira foi a mensagem, via Facebook, com a dona da casa em que estive para o Intercâmbio, em Battle Creek (Michigan), em 92. Ela fazia, na época, a melhor Cheese Cake que já provei em minha vida. Escrevi, explicando o significado da experiência com sua família, e o quanto a receita está atrelada a esta memória, mas não obtive retorno, apesar de ela ter aceito minha amizade na ferramenta. Paciência, não insisti. Isto ocorreu há pouco, o livro estava quase pronto...No texto "Na terra dos Kellog´s", escrito beeeeeeem antes, chego a explicar o porquê de a receita daquela torta, em especial, não ser indispensável: o que fica, mesmo, é o registro que nossas emoções e lembranças capturam. Mais uma vez, sem a receita da 'Cheese Cake Ideal'. A outra tentativa frustrada foi a de contato com a dona do Bed&Breakfast de Edimburgo, para pedir os segredos dos seus Croissants fabulosos e da geléia de laranja do café da manhã. O email mudou, a hospedagem parece nem existir mais. Nos textos 'Croissants ainda quentes' e 'Me passa a geléia de laranja?' conto o porquê destas receitas serem tão importantes para mim. Sabores que permanecem na imaginação, território livre e  sem mapa.

E hoje...Algo fabuloso aconteceu! Lembram da querida Anilda, a professora que aparece no texto "Bhaskara no lanche da tarde"? http://serendipityincucina.blogspot.com.br/2012/06/baskara-no-lanche-da-tarde.html
Pois consegui, depois de muito tempo, falar com ela pelo telefone, para convidá-la ao lançamento do livro!!! Tentava sempre, mas nunca com sucesso, e cheguei a imaginar que o telefone havia mudado. E não: era exatamente aquele de que eu lembrava. Então contei dos escritos, contei que há um texto em sua homenagem, em que falo de seu 'bolo de melado', do qual tenho a receita até hoje, escrita por ela numa folha amareladinha. Ela contou-me de seus netos e do bisneto, que completa dois meses no dia da nossa celebração, mas, ainda assim, a Anilda garantiu que vai aparecer! Como eu fiquei feliz!!!
Quando atendeu o telefone, confesso que voltei no tempo à época das aulas, foi como retornar 20 anos e, por segundos, rememorar os estudos com bolo e limonada na mesa da sala de jantar de sua casa. 

E tantas outras histórias vividas que registrei por aqui, que passei ao livro...Para mim, riqueza afetiva está no fato de estas histórias gerarem outras, como o telefonema para a Anilda, hoje, tão emocionante. Além deste contato, outros, com amigos e colegas que participaram de minhas epopéias culinárias durante tanto tempo...Com cada lembrança, constrói-se um novo post!

Então, hoje foi mais um dos dias de revisita, propiciado pelo percurso do blog, do livro, das memórias. De todos eles, vocês, leitores, são parte fundamental, pois foram até aqui, e seguem sendo, o grande estímulo para lembrar daquele evento pitoresco a contar, daquela receita explosiva que deixou a cozinha em frangalhos, daquela memória que só um quitute é capaz de evocar. Até aqui, muitos foram os diálogos, os trajetos, as relembranças, as criações. E estamos quase com o livro nas mãos. A partir dele, vocês vão começar, continuar ou renovar suas próprias histórias, seu próprio 'como-se-faz' (lembram que contei que há um caderno de receitas na segunda parte do livro?), e, quem sabe, suas próprias revisitas...

Lá no primeiro post "Serendipity in Cucina", em 27 de março, escrevi: 'Começamos uma caminhada sem mapa, seguindo as pistas do acaso. Destino? A culinária, labirinto de experiências'.

Labirinto que se forma em nossas experiências subjetivas na cozinha, em nossas peripécias bagunceiras, nos cinco sentidos em ofício, nas nossas prosas de forno-e-fogão... Nos encontros entre as suas e as minhas memórias, as suas e as de sua família, amigos, amores... Nas entrelinhas de conversas que, num sempre, trazem um 'como-se-faz' recheado de sentimento e história.

Gracias por chegarmos até aqui! E aguardo vocês para nossa celebração-lançamento, na segunda-feira, dia 17/12/2012!!!

Os detalhes estão no convite!

Abraço, com afeto!
Betina Mariante Cardoso





















Lembrando.......!


Sobre o lançamento!



Nosso marcador de páginas! Distribuiremos na celebração-lançamento.

Participe do nosso tim-tim no Empório Mercatto!

Segunda-feira, 17 de dezembro de 2012,
na R. Fabrício Pilar, n. 93.
(Entre a Fabrício e a Bordini)

A partir das 10hs da manhã, está aberta a celebração. Passarei o dia no Empório, até às 20hs, então os amigos podem chegar na hora mais conveniente de sua segunda-feira, sem atropelos na rotina. A escolha pelo horário esticado, ao longo de todo o dia, tem por objetivo propiciar que todos os convidados participem deste momento tão significativo para mim, seja para o almoço, o lanche da tarde, o Happy Hour ou para um cafezinho breve entre uma correria e outra! 
Aqui em casa, estamos bolando as lembrancinhas, para os amigos que puderem celebrar junto comigo o nascimento do meu 'Pequeno Alfarrábio de Acepipes e Doçuras".

O livro estará disponível para a venda no local. Após a data, avisarei em que livrarias e estabelecimentos será possível encontrá-lo.

Participe!!!

Abraço,
Betina

sábado, 1 de dezembro de 2012

Os figos Cristalizados da Vó Léia e seus horizontes...



Boa tarde! 

Pois contei, na postagem anterior, do meu "Queijos e Vinhos de Verão", algo que adoro preparar para os amigos!
Com o início de dezembro,  nossa atenção volta-se para  os presentes, as celebrações, os  quitutes e saborices  especiais, os  'tim-tins'  clássicos do mês, e  vale usar a criatividade na composição das receitas que preparamos para os encontros de final de ano. Comentei no texto anterior: a ideia de um festejo diferente, que agregue leveza e partilha, permite criar vários acepipes originais, usando, inclusive, os ingredientes e as receitinhas próprios da estação.

Um dos sabores típicos desta época, para mim, é o dos figos cristalizados. Esta é outra das especialidades da Vó Léia, que era expert na confecão dessas delícias...Por muitos e muitos dezembros, a Vó produzia uma panelona de figos para depois vestí-los de açúcar e então embrulhá-los para presente. Lembro-me, ainda: no pacote, havia uma base de papelão, onde eles repousavam, com pose de aristocratas - belíssimos, por sinal; uma porção de papel celofane transparente envolvia-os com abundância, dando um ar viçoso ao conjunto...Por fim, um laço de fita vermelha completava o tom de festa das doçuras. Quantos destes pacotes eram feitos a cada Natal!!! Então, tenho nos figos cristalizados um registro vivo deste período do ano! E cheguei ao ponto: a proposta de usar   ingredientes e iguarias típicos da época em contextos inusitados, bem diversos das aplicações originais. Como assim?

Conhecemos aquela salada, já bastante difundida, de rúcula com Presunto de Parma e figos frescos, não é mesmo? Pois dia desses me ocorreu o seguinte: trocar a fruta em estado fresco pelo doce cristalizado, na mesma salada. Você pode perguntar, sussurrando:

-Será????????

Fiz a experiência, e adorei!!! Para mim, é um modo de darmos um toque natalino para uma receita contemporânea, e digo mais. É uma ótima saladinha para o "Queijos e Vinhos de Verão": integra o Presunto de Parma como elemento dos 'Queijos e Vinhos', o figo cristalizado como elemento típico das festas de fim de ano e a rúcula fazendo o papel do ingrediente refrescante e saudável de verão. Deste modo, apresentamos aos nossos convidados um conjunto harmônico, que contempla os diversos significados deste formato de celebração.

Gostei muito de arriscar o uso dos figos cristalizados, aproveitando seu contraste entre a crocância por fora e a maciez por dentro, sua doçura soberana e sua elegância clássica,  cortados em fatias finas e misturados às tiras do Presunto e às folhas da rúcula. Sim! Entretanto, o que mais me agrada na ideia é trazer uma iguaria típica do Natal, ao menos em minha família, para outro cenário, em que esta se torna novidade e quebra a rotina de sabores a que vamos nos acostumando. 

No centro do prazer desta invenção culinária está o território livre para 'brincar', representado pela cozinha.

E então: mãos à obra???

Um ótimo sábado, para começar dezembro!

Abraço,
Betina Mariante Cardoso