sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O 'Mágico' Zester!


Na postagem anterior, mencionei uma das pastinhas feita com raspas de limão, pimenta calabresa em flocos e queijo Parmesão ou Grana Padano ralado. Já estava, ali, premeditando: falaria, em seguida, do meu fiel utensílio na cozinha, o Zester. Acredito que seja meu favorito, entre tantos...Claro, gosto de várias ferramentas que possam auxiliar meu desempenho culinário, mas com o Zester é diferente. Tenho apego ao dito-cujo. Sempre que há uma possibilidade de usar limão, aproveito! Apenas para pôr o tal em ação! Adoro ver sua casca saindo em tiras exatas, por entre os dentes do aparelho, que isso dá um encanto à receita...Depois que comecei a usar, virou moda minha adicionar limão em quitutes e doces variados, apenas para aproveitar as raspas...

Temos nossas 'mágicas' na cozinha, esta é a minha; embora não haja qualquer segredo, há, para mim, encanto nas raspas extraídas pelo Zester. A mágica parece estar na simetria, no equilíbrio entre a tensão que aplicamos à fruta e a retirada precisa das raspas. A mágica está no ato de encostar o Zester na superfície rugosa da casca.  Nem com tanta força, nem com demasiada suavidade, encontrando o ângulo perfeito para a extração. Quando acontece, que fascínio!

Recebi meu primeiro como presente de Natal em 1999, e desde ali houve um importante despertar culinário, originando ideias que envolvessem as frutas cítricas. Além dele, a laranja, a lima... 

Há o pleno exercício do lúdico, no uso deste instrumento. O olhar da 'criança' que brinca com as formas, quem sabe? Indo além, as percepções dos 'pequenos' frente ao efeito inusitado do utensílio. É o que sentimos, em parte, como adultos, mantendo nossa 'chama da brincadeira' acesa...

E você: Tem um utensílio favorito na cozinha? O que ele faz você sentir ao usá-lo?

Abraço,
Betina Mariante Cardoso

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Acepipes para a prosa longa!

Quando escrevi sobre a Torta de Palmito da Dona Mimi, lembrei de uma receita que fazemos aqui em casa, para entradinhas e petiscos: os palitos de queijo, com 'Massa Podre', a mesma que usamos para a torta. Para acompanhar, conto a receita de duas pastinhas que adoro oferecer. A primeira, feita com Käschmier, sopa de cebola (em pacote) e queijo parmesão ralado, tem uma personalidade forte, imperativa, robusta em consistência e sabor. Depois de colocar um pacote do preparado para sopa e um pacote de 50g do Parmesão ralado no conteúdo de um pote do käs schmier, misturo bem todos os elementos, adicionando, ao final, 3 a 4 colheres (das de sopa) de creme de leite fresco. Esta última etapa completa a experiência da receita, deixando-a mais homogênea e macia. Sugiro ir testando a mistura a cada nova colherada, para que se chegue no ponto adequado: nem muito espessa e rugosa, nem muito macia e deslizante. 

A segunda pastinha tem a mesma base da primeira(käs schmier), variando os ingredientes. Nesta, uso raspas de limão, pimenta calabresa em flocos e o queijo ralado (pode ser o Grana Padano ou o Parmesão). Procedo como na anterior, trabalhando bem o conjunto; ao final, acrescento o creme de leite fresco, também 3 a 4 colheres, provando para chegar à textura prazerosa. 
Estas duas receitas são  simples e rápidas: podemos fazê-las sempre que bolarmos, de improviso, uma reunião de amigos!


Agora, para os palitos de queijo: usamos a receita da 'Massa Podre', da postagem anterior (da Torta de Palmito), com uma xícara de queijo Parmesão ralado. Deixamos a massa com 1cm de espessura, para cortar em tiras, assando durante 10 minutos em forno 180º. O sabor convidativo e a crocância dos palitos, junto à maciez das pastinhas, animam o bate-papo dos comensais!!! Dica do blog: As pastinhas rendem boas porções, sendo válido fazer-se sempre mais de um tipo - em geral, um mais quente e outro mais refrescante, como no exemplo acima; os palitos, no entanto, devem ser feitos em quantidade 'reforçada', que a conversa vai longe!!! Os 'patês' valem também para rechear canoinhas, complementando os quitutes da festa.



Para este comes-e-bebes, escolha a bebida de preferência, deixe a boa música tocando, reserve uma provisão de boas risadas com os amigos...Que a noite segue!

Abraço,
Betina Mariante Cardoso

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Torta de Palmito da Mimi Moro


Receita da Dona Mimi, conforme anotação nos nossos cadernos (caderno da Vó Léia, da mãe e meu). Mais abaixo, em Itálico, apresento a variação feita aqui em casa, pela Vó,  e seguida tempo afora.

Dona Mimi: Para a 'Massa Podre' ( o termo vem de Poudre, do Francês: alusivo a esfarelado): Misturar, na ordem, 3 tabletes de margarina, 2 ovos pequenos inteiros, 3/4 xícara de leite, sal, 1 1/2 pacote de fermento químico, farinha de trigo o quanto baste ( a massa tem que soltar da mão) - Amassar, enrolar em papel laminado e levar à geladeira por algumas horas*. Medidas para a forma redonda 'de abrir'- 25cm de diâmetro.

Para o Recheio: 1 xícara de caldo de palmito, 1 xícara de leite, 2 colheres de farinha de trigo, 2 gemas, 1 colher de manteiga, 5 azeitonas grandes, 1 colher de salsinha e cebolinha, 1/2 lata de creme de leite, 1lata pequena de palmito, 2 colheres de queijo duro ralado.


Variação da nossa família: 

*Massa 'Podre': em geral, 2hs na geladeira

Para o recheio

                              1 xícara de queijo ralado (bem apertado)
                               1 colher de maizena, ou até adquirir consistência firme
                               1 colher de manteiga
                               2 gemas
                               1 copo de leite 
                               1 pitada de sal
                               1 pitada de pimenta branca
                               1 gema para pincelar (com água)


Modo de fazer: Misturar tudo na panela até aparecer o fundo. Acrescentar, então, 1 vidro pequeno de palmitos (a metade dos palmitos esmagada; a outra metade, picadinha). Abrir a massa na forma, com as bordas sobrando, e colocar o recheio dentro. Fechar as bordas por sobre as margens do recheio. Pincelar, por cima deste, a gema com um pouquinho d´água (que apenas amoleça levemente a gema). Decorar com delicado arranjo de massa no centro, e pincelá-lo, também. Pré-aquecer o forno; assar a torta em temperatura 180º. A receita está pronta em torno de 30 minutos, ou até que a massa esteja corada.

Obs: Na massa da torta, colocar queijo parmesão ralado


Dica do Blog: 
Um belo quitute para festas com a família e com os amigos! Enfeita a mesa e prestigia os convidados! Melhor ainda: tem um sabor elegante e confortável! 


Abraço,
Betina Mariante Cardoso



domingo, 26 de agosto de 2012

Revisitando 'Dona Mimi Moro'


Foi de propósito que citei Dona Mimi Moro no post anterior. Entre os leitores, haverá aqueles que ouviram falar nela, outros que viam seu programa na TV, os seguidores de suas receitas...Pois Dona Mimi era madrinha do meu avô, Helio Moro Mariante, o que a tornou alguém muito presente no meu imaginário, desde pequena. Não cheguei a tempo de conhecê-la pessoalmente ou no Programa de Culinária na TV Piratini; assim, o espaço que ela ocupa em minha vida é pelo ouvir contar, tempo afora. E pela receita da Torta de Palmito com Queijo, que passou do caderno de cozinha da Vó Léia para o da mãe, e então para o meu. Com uma mudancinha aqui, outra ali, a receita consta nos cadernos: 'Torta de Palmito da Mimi Moro'! A mãe fez este quitute tantas vezes que solidificou a importância da receita-e da Dona Mimi- em nossas festas. Ah, e a Culinarista marca presença em nossa cozinha, também, pelo prato de servir tortas, pintado por ela para minha mãe.

    Amália Mascarello Moro, ou, como era conhecida Dona Mimi Moro, nasceu em Flores da Cunha,RS, em 21 de outubro de 1894, e faleceu em Porto Alegre, em março de 1977. Foi a primeira apresentadora de culinária na TV do Rio Grande do Sul, a partir de 1959.*

Mas andemos uns passos para trás.

Teve sua educação orientada para as funções de mãe de família e dona de casa; neste percurso, começou aos dez anos de idade seu aprendizado no preparo de alimentos. Veio morar em Porto Alegre em 1930; por mais de 30 anos, dedicou-se ao ofício com rendas e trabalhos com agulha, sem nunca perder o interesse pelas atividades de cozinha. Começou dando aulas de Arte Culinária com propósito beneficiente: seus dois primeiros cursos ocorreram quando Dona Mimi fazia parte do grupo que dirigia a creche Nossa Senhora Auxiliadora, em benefício da creche. Não demorou muito para sua fama como Professora correr pela Porto Alegre daqueles tempos: além do talento para as aulas, tinha vasto domínio em uma grande quantidade de pratos. Recebeu o convite para lecionar Arte Culinária na TV Piratini em 1959, no Programa 'Variedades Geral'; logo após, ganhou um espaço específico: 'Cozinhando com Dona Mimi'.

Dona Mimi, depois de assistir a uma telenovela na Década de 1970, solicitou à produção do Programa uma cadeira, mesa, prato e talheres, para dar lições de etiqueta na TV. Acreditava na função educativa da televisão, considerando necessário ensinar noções de civilidade-na mesa e na tela!

Escreveu alguns livros de receitas, sendo Dona Mimi Moro uma presença obrigatória nas prateleiras de cozinha das donas de casa, nos arredores da década de 70. 

Para mim, era uma figura encantada, que habitava a imaginação, numa atmosfera semelhante àquela que ocupam os personagens de histórias infantis. 'A Madrinha', como chamava o Vô Hélio, era uma figura que emanava, na minha infância, um território de fantasia. 'Dona Mimi Moro', 'Tia Mimi', 'Madrinha' eram dizeres frequentes quando se falava nesta ou naquela receita, na casa da Vó e do Vô, lá em casa, em comemorações de família. E até hoje a sinto deste modo: com fascínio pela imagem dela no fogão, da capa de um dos seus livros (nesta postagem). Eu era criança, começava a aprender os encantos da cozinha, assistindo às preparações de quitutes, e lembro que ela era tema recorrente nas conversas: 'fazia assim, fazia assado, usava tal ingrediente'... Dela, eu sabia que dava aulas de cozinha na TV, que escrevia livros de receitas, que era dotada de grande talento. Sem tê-la conhecido, o que montou sua memória em minha vida foi o papel de professora de cozinha dedicada, Senhora  plena de delicadezas e de aptidões, dinda do vô, apaixonada pelas virtudes da Culinária. Pois bem: imagem composta de relatos, uma vivência imaginada e sentida para mim.

Hoje, sua presença em nossos registros de família fica por conta da Torta de Palmito com Queijo, também patrimônio do meu imaginário: quando planejo uma festa, a Torta está no roteiro, feita pela mãe. Tantas vezes a assisti fazer a receita, reeditando, a seu modo, a elaboração da Dona Mimi. E há sempre uma mágica nestas reproduções; a mágica de um ensinamento que vai passando pelas cozinhas de vó, de mãe, de filha. 

O prato pintado à mão pela Dona Mimi, por sua vez, sempre acolheu minha torta de maçã com castanhas, Clássica de Natal. Recebeu o bolo-caixa de bombons, nos idos de 88, e tantas outras doçuras...

 Descrever a importância desta 'madrinha' nos meus percursos culinários foi algo difícil, por se tratar de alguém que habita, em mim, uma 'memória imaginada'. O texto levou horas... Construir sua figura através de relatos é uma vivência afetiva, e eu nunca tinha escrito sobre estas lembranças e percepções antes. Dona Mimi Moro ocupa um universo de encantos de cozinha, em minha trajetória. Talvez porque ela represente o cozinhar como gosto de senti-lo: com esmero e paixão. Talvez por ela ter realizado suas aspirações com tal empenho que se destacou nos lares e nas cozinhas das décadas de 60 e 70. Seu papel nas famílias da época, no Rio Grande do Sul, foi relevante: ela habita, ainda hoje, a memória coletiva, por seus livros e pelas aulas de cozinha na TV.

E você? Que lembranças tem da Dona Mimi Moro?

Vou adorar se compartilharmos as várias memórias que ela desperta quando falamos de cozinha! Fique à vontade para participar da seção de comentários: você é muito bem-vindo!!!

Abraço, com carinho.
Betina Mariante Cardoso

*Consultas para esta postagem:






sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Sempre junto ao forno


Lembro-me de tantas cozinhas por onde estive. Na minha cidade, noutras cidades. Sempre associadas, na minha memória, a momentos tão significativos que chegam a ser, ainda hoje, tangíveis. Para mim, entrar em qualquer cozinha é chegar ao coração da casa; adoro saborear a comida na mesa de jantar, junto ao fogão, forno, geladeira, despensa...Sou parte do cenário, da cena, da trilha sonora dos talheres, pratos, instrumentos. Começo a listar, na memória, os territórios culinários que conheci, nos lares da família, de amigos, de romances, nas viagens que fiz sozinha, no sítio, na casa da praia dos avós, e por aí vai. Quantas conversas sérias, quantas risadas, reflexões. Sempre junto ao forno. Em muitos destes lugares, depois de uma certa idade, pude cozinhar, ou assistir aos outros preparando este ou aquele quitute. E havia, em cada movimento, um passe de mágica. Uma emoção única, que nasce, acho eu, do exercício da nossa Humanidade mais profunda: o ato de preparar o alimento. 

Há algo silencioso em nós que reconhece aquele instante, algo tão antigo que nem temos registro desta consciência. Mudam os tempos, os contextos, surgem as cozinhas pós-modernas com toda sorte de equipamentos nos micro-lares de hoje em dia, mas, pasme, ainda sentimos a tal da 'emoção única'. Aquela, à moda antiga. Um sentimento de pertencer  ao universo de experiências que a cozinha oferece. 

Em qualquer lugar, em qualquer época, estar nesta peça da casa, para mim, significa viver o Humano em sua forma mais viva: em cena, preparando o alimento. E mais: a meu ver, estar na cozinha representa valorizar a evolução que passamos, em velocidade galopante através dos tempos, para chegarmos até aqui. Estamos em uma época de recursos mágicos, de livros culinários de alta tecnologia, com fotografias para além da imaginação. Um período de grande diversidade de conceitos e posturas, modas gastronômicas, revoluções, descobertas e redescobertas nos hábitos alimentares. Livros para quem come sozinho, para casais, para famílias, para reuniões profissionais, para piqueniques, de todos os países, idiomas, sabores, estranhezas. Livros de 'Cozinha da Vó' prosperam nas livrarias, blogs e estantes de casa. A Avó, esta figura de grande cotação no mercado internacional: não importa em que tempo e lugar, ela é, (quase) sempre, a imagem máxima na cozinha, detentora do saber e do fazer culinário. De carona, vem a expressão 'Confort Food', a reedição de doces antigos, as decorações Vintage. De mãos dadas com aparelhos de última geração. 

Tudo fazendo parte de um sentimento coletivo: cozinhar. Um ato que nos põe em sintonia com nossas bisas, tataravós, com gentes do outro lado do mundo. Um ato que nos faz seres comuns munidos do desejo profundo de comunhão, de sentido. Ao cozinharmos, nos tornamos parte de algo, um algo a que outras pessoas também pertenceram. Então, mesmo estando sozinhos, cozinhamos para estabelecermos este elo com os demais, que cozinham ou que já cozinharam. Um elo com o Humano, que prepara o alimento, enquanto fazemos o mesmo. Pronto! Somos parte de um grupo. Talvez este tenha sido um dos motivos para que eu me mobilizasse, dia destes, a colocar a foto da Julia Child aqui no blog, com um texto em homenagem a ela. Ou talvez por isto eu escreva sobre Irma Rombauer, Doña Petrona, Blanca Cotta, Rosa Maria, Dona Mimi Moro...Ou me alegre ao ver os programas dos Chefs contemporâneos na TV, como Jamie Oliver. Em algum ponto, o encontro: o Humano em nós. Sempre junto ao forno.

Bom, seguindo a prosa de ontem...Do papel da saúde neste enredo. Ela está neste amor que colocamos no ato culinário, nesta vizinhança com quem já esteve ali, no preparo do alimento para oferecer carinho e prazer na comida. Sim, a saúde está nos ingredientes e no modo de preparo que escolhemos para proporcionar, ao nosso organismo, melhor funcionamento. Tudo isto é verdade verdadeiríssima! Acredito de fato que a saúde também esteja neste prazer, neste gosto pelo preparo. E está, sem dúvidas, no cuidado com o que estamos sentindo, pensando e ouvindo ao amassar o pão, ao mexer a massa do bolo, ao bater as claras em neve: tudo isto para termos uma experiência positiva ao fazermos um prato. Uma experiência viva, plena, com benefícios para nós, que elaboramos, e para quem degusta. E este prazer também é saúde!

Um Bom Fazer!

Um abraço,
Betina Mariante Cardoso






Cozinhar: um ato de saúde

E já que conversamos, nos posts anteriores, sobre a Cozinha Consciente e sobre a intersecção de Jardinagem, Gastronomia e Qualidade de Vida, vale a reflexão: além de o alimento ser necessário à sobrevivência, cozinhar também é um ato de saúde. Não apenas pelo QUE cozinhamos, pelos ingredientes e técnicas que escolhemos, mas também pelo COMO o fazemos: com prazer, ou por obrigação? POR QUE cozinhamos? Apenas pelo papel alimentar do que preparamos? E PARA QUEM cozinhamos? Amor, família, amigos, clientes? QUANDO? Estando tristes? Ou alegres, animados?
Todas estas respostas referem-se à saúde, em seus vários domínios.

Então, saímos da esfera objetiva, em que o alimento é essencial para nós, e tudo o que já se sabe a respeito dos cuidados relevantes para uma vida saudável...E passamos ao olhar abrangente do cozinhar também como prática essencial ao bem-viver. E de tamanha importância na História da Humanidade.

A propósito, os livros de cozinha já foram categorizados no campo da Medicina, você sabia? Sim, estes livros eram classificados, por tradição, na seção 'Ciências e Artes', subseção Medicina, ao lado das obras de dietética. Foi qualificada de Arte pela primeira vez em 1764, e só em 1776 foi retirada da subseção Medicina, sendo então separada da 'Higiene', da 'Dietética', e dos tratados sobre vinho, chá, café e chocolate; assim, "emancipou-se" e foi colocada ao lado das artes aristocráticas, tais como equitação, esgrima, dança, caça, etc...*

Esta informação ilustra bem a vizinhança entre a Medicina e a Culinária. Agora, quero olhar para as entrelinhas...Para o foco  de nossa atmosfera interna quando cozinhamos. Oferecendo nossos quitutes, satisfazemos nossas necessidades, e aquelas de quem amamos e respeitamos; entretanto, no ato de cozinhar, há também o proveito afetivo do fazer culinário.

Amanhã sigo a prosa...Por enquanto, basta que pense nas suas vivências na cozinha. E perceba as emoções que esta peça da casa desperta e despertou, ao longo da vida. Quais são os registros?

Um abraço,
Betina

*Fonte: A História da Alimentação, Flandrin JL e Montanari M.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

"Jardinoterapia", a Oficina da Michele Valent!!!



...E falando em Culinária Consciente...Tenho a alegria de apresentar a Oficina da Michele Valent
(Médica Psiquiatra, Especialista em saúde mental do trabalhador e professora de gastronomia no ICIF/UCS), que nos brindará com seu trabalho fantástico no campo da jardinagem urbana! Há muito o que contar sobre a riqueza das intersecções entre o Jardim (para a Michele, o seu 'Giardin') e a cozinha: intersecções desenvolvidas  por ela ao longo de um Hobby que assumiu atributos de profissão. Melhor dizendo...Dois hobbies: Jardinagem e Gastronomia. Binômio que se funde para compor a atmosfera lúdica e saudável dos jardins de sacada de nossos tempos,  quando pouco espaço se combina com grande criatividade, prazer e aproveitamento. O resultado? A natureza exuberante desfrutando de cada recanto da sacada.
Como? É o que você aprenderá com a Michele na Oficina 'Jardinoterapia'!
Por enquanto, conheça nossa programação e visite o blog da Michele Valent:
http://www.michelevalent.blogspot.com

Oficina: “Jardinoterapia” – jardinagem urbana e gastronomia a serviço da qualidade de vida

Professor: Michele Valent

Carga Horária: 8h (sábado, 22 de setembro, das 9 às 17:00h)

Súmula:
Conceito e virtudes da “jardinoterapia” na promoção da qualidade de vida;
Panorama das ervas aromáticas, verduras, legumes e flores comestíveis de mais fácil cultivo em vasos;
Elementos de plantio, características do ambiente e cuidados (rega, poda, adubação, combate a pragas).

Objetivos:
·        Despertar para a possibilidade e para as vantagens do cultivo com fins alimentares em apartamentos e espaços reduzidos;
·        Apropriar-se dos rudimentos de jardinagem necessários para iniciar o próprio cultivo;
·        Conhecer espécies alimentares adaptáveis a esse tipo de cultivo.

Conteúdo Programático:

MÓDULO
CONTEÚDO
CH
TEÓRICA

·         Apresentação audiovisual: o que é jardinagem gastronômica
·         Exibição do Programa Vida&Saúde: Jardinagem como Hobby
·         Exibição do documentário: Homestead Revolution
·         Panorama das ervas, verduras e flores cultiváveis em apartamento
3h
ALMOÇO
·         Degustação de almoço a base de ervas cultivadas em apartamento: massa com ervas e filé, salada, cheesecake
2h
TEÓRICO - PRÁTICA
·         Montagem de uma jardineira com três espécies
·         Princípios de plantio, rega, poda, adubação e combate às pragas
·         Exibição de vídeo: compostagem em apartamento
·         Lanche: biscoitos de lavanda
3h


Recursos Metodológicos:
·        Data-show
·        Apostila com: programa, receitas e resumo dos slides
·        Cozinha prática e almoço
·        Jardineira plástica, manta de drenagem, terra e três mudas por participante

Valor: 170,00
(incluídos materiais e refeições)

Serão fornecidos certificados aos participantes ao final da Oficina.


Inscrições: editorialluminara@hotmail.com
bmariant@terra.com.br


Importante: As vagas são limitadas! Solicite os dados bancários para depósito pelos e-mails fornecidos. As inscrições ocorrerão até 15 de setembro, com o envio do comprovante de pagamento por e-mail, para confirmação. Não haverá inscrições no local. Assim, antecipe-se! 

Abraço,
Betina Mariante Cardoso




Referências:
Bornhausen, Rose. As Ervas no Jardim e As Ervas na Cozinha. São Paulo, Bei, 2010.
Esse é o melhor livro escrito no Brasil sobre ervas na culinária e jardinagem gastronômica. De leitura leve e divertida, traz uma quantidade incrível de informação.
Cox, Jeff. Moine, Marie-pierre. Ervas Culinárias. São Paulo, Publifolha, 2011.
Esse é o mais fácil de encontrar, contém um belo resumo da prática da jardinagem gastronômica.
Meu blog, com fotos das minhas receitas, do jardim, achados de viagens e congressos, garimpo antropológico-gastronômico e notícias do cotidiano do cultivo de comestíveis em apartamento.
Blog da Paula Magnus, vencedora do concurso ZH Gastronomia de 2011 para receitas criativas com aipim e dona de um sítio onde se pratica a verdadeira agricultura sustentável. Trabalho seriíssimo, de alta qualidade, com plantas alimentares não-convencionais (pancs).


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Tomatinho da Cooperação


Pois... Bem no dia em que postei as receitas tomateiras (no domingo), fui surpreendida com um belo tomate pulsante no Facebook, e fui ver o que aquela imagem guardava. Conheci, assim, uma iniciativa de que já tinha ouvido falar brevemente, o crowdfunding. O termo refere-se a um projeto desenvolvido por um indivíduo ou por um grupo com um propósito específico; o autor, assim, chama as pessoas, através de uma campanha, a colaborarem com a realização do objetivo. Esta colaboração pode ser econômica, através de um valor pequeno, ou apenas contando com a divulgação do projeto, do banner eletrônico ou da referência nos meios digitais (Facebook, Twitter, blogs e etc.). Entendi que, deste modo, os financiadores do projeto somos nós, sujeitos comuns, que, com uma quantia pequena, ajudamos uma ideia a realizar-se! 

O tomate se referia à campanha do blog italiano de cozinha, o 'Il Pasto Nudo', de Culinária Consciente, voltado ao desenvolvimento das atividades de saúde, sustentabilidade, bem-viver, que estão associados à conscientização no ato alimentar. Princípios associados ao Slow Food, que valem ser difundidos. http://www.ilpastonudo.it/. O blog é de autoria de Sonia Piscicelli, designer pelo Istituto Europeo di Design, que tem na culinária e seus redores uma das atividades principais. Por hobby e por filosofia de vida. Adorei o blog 'Il Pasto Nudo', e também a inicitativa de Sonia: chamar as pessoas para participarem, através de uma campanha de crowdfunding,  da realização de seu livro, com os conteúdos desenvolvidos no âmbito da Culinária Consciente! 

Foi então que me tornei colaboradora do projeto, colocando, na lateral deste blog, o tomatinho pulsante da campanha do 'Il Pasto Nudo'! Basta clicar sobre ele para saber mais sobre a riqueza deste trabalho, e sobre a coragem de Sonia em convidar os leitores para se tornarem realizadores de sua empreitada. Este formato de colaboração tem muita sintonia com o foco da cooperação, dos projetos sustentáveis. Projetos que contam com o ingresso dos participantes em uma filosofia de ação. Mais do que simplesmente pagar para o livro acontecer, vejo a possibilidade de ser parte de uma ideia, de me sentir responsável pela presença material e imaterial de uma porção pequenina, mas viva, desta obra. E esta sensação é muito boa! 

Clique sobre o tomate, abaixo do título 'Colaborando', e conheça esta iniciativa. Ali, é possível saber como participar, sobre o que se trata, o que se ganha em troca por colaborar. Aderi à campanha por reconhecer, no incentivo, um acesso para a partilha, para a troca, mesmo tão de longe. Contribuir para a realização de um livro, e mais, de um propósito coletivo como ESTE livro, me entusiasma: acredito, de coração, que este seja um modo de participação consciente. Fazendo o meu livro, neste mesmo período, sei como cada pedacinho importa, e considerei fantástico alguém desenvolver algo que conte, abertamente, com a cooperação alheia. 

E isto é uma das coisas bárbaras entre os blogs: uma atmosfera de partilha entre os projetos e estímulos!

Vamos clicar?

Um abraço,
Betina Mariante Cardoso

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O Origami e o Saco de Confeiteiro


Sábado de manhã, antes da Oficina de Origami*,  sugeri que, no almoço daquele dia, formas e cores se entrelaçassem, dando alegria à mesa. Escrevi instintivamente, sem saber que, na prática, este entrelaçamento existe feito mágica nesta Arte. Pois foi o que tivemos naquela manhã: cores e formas que geravam seres em nossas mãos, vidas de papel que nasciam de nossa ligação intensa com cada dobradura. Descobri a alquimia na atividade, uma força que é despertada quando a figura se revela pronta entre nossos dedos. De súbito, está ali a flor, o Tsuru, o peixe. Coloridos, lúdicos, nascentes e plenos de um desejo simples: viver. Já são do mundo quando pousam para a fotografia, enquanto minhas mãos se dedicam ao próximo Origami. 

Tocar no papel, sentir sua textura, percebê-lo transformando-se em algo, e de novo e de novo, me proporcionou uma vivência de força interna, num campo em que eu desconhecia: a folha como matéria-prima. O 'tocar' nela para torná-la um ser. De forma e cor, de identidade, de voz própria. 
Apesar de gostar bastante de trabalhar com as mãos na cozinha, sempre me considerei devagar quando o assunto era usá-las para as Artes Plásticas. Bem, devagar é eufemismo. Considerava-me inapta a qualquer trabalho em que as mãos fossem artistas, exceto em se tratando das Artes Culinárias. Estas sempre foram as únicas a que me dediquei. E a folha? Meu campo aberto para as palavras jogarem-se nele. Nunca me imaginei gostando da prática de uma atividade que requer foco, habilidade manual, destreza, silêncio, como esta prática Oriental...Nunca me imaginei conseguindo dobrar o papel até que chegasse na dimensão de uma flor. E nunca imaginei enxergar, literalmente, formas e cores se entrelaçando para gerar uma vida.

A Artista Plástica e Arte-Educadora Evelise Viganico, ministrante da Oficina, conduziu o trabalho de forma lúdica, com bom-humor e orientações precisas sobre cada peça, sobre cada etapa. Havia, no ambiente, uma atmosfera daquelas Aulas de Artes do Colégio. Pelo toque no papel, pelas cores, pela suavidade ou aspereza das folhas, pela pulsação das figuras, pela entrega dos participantes ao processo. 

Com esta oficina, descobri ser capaz de realizar algo que nunca pensara poder desenvolver. Mais ainda: gostei muito do exercício, em sua plenitude. E pensei no quanto, de fato, existem aptidões a que nem almejo, acreditando serem 'impossíveis' de aprender. É claro que sempre seremos melhores em algumas práticas, piores em outras. Isto é natural, Humano. O importante, a meu ver, é nos propormos ao maior número de possibilidades: ampliamos o leque do que sabemos fazer, do que gostamos de fazer, do que não gostamos, mas somos aptos a fazer. Quando nos desafiamos, conhecemos mais de nós mesmos. Quebramos nossa estagnação, fazendo algo que nunca faríamos, por gosto ou habilidade, e compreendemos que toda nova experiência é parte do nosso percurso de mudança. Incorporamos o novo em nós, passamos a desenvolver um campo de ação diverso, e isto tem implicação em quem somos, em quem nos tornamos a partir de então. 

Na cozinha, sinto isto em relação aos trabalhos com Saco de Confeiteiro. Amo as decorações possíveis com os bicos, mas considero um trabalho de artesania de tal delicadeza que só a mão mais hábil poderia  esculpir com eles. A meu ver, aqui está a preciosidade do desafio: a percepção, dentro de mim, de que realizar a nova tarefa é apenas mais uma vivência, e não um Tribunal. A permissão interna para realizar, errar, aprender, gostar, descobrir, é o que faz com que tenhamos vontade de seguir em frente. 

Trabalhamos com um número cada vez maior de ferramentas para nosso auto-conhecimento. Acredito de fato que sabermos o que fazemos bem feito, e, ao mesmo tempo, desafiarmos o desconhecido, seja um equilíbrio necessário para avançarmos em nossa trajetória. 

Enfim, com Origami ou com Saco de Confeiteiro, tenho em  mãos a possibilidade de gerar mudanças em  minha vida, na visão de mim mesma. E nas próprias aptidões, pela plasticidade cerebral: em toda atividade, quanto mais fizermos, melhor faremos!

Hoje, fico por aqui.

Boa noite!

Betina Mariante Cardoso

*OBS: A Oficina de Origami foi realizada em 18 de Agosto de 2012, na Luminara Escola de Hobby, tendo como ministrante a Artista Plástica e Arte-Educadora Evelise Viganico. 


domingo, 19 de agosto de 2012

Lanche da Tarde domingueiro: pão-de-minuto de três queijos


Montando o Lanche da Tarde do Domingo? Este pão-de-Minuto de 3 queijos é uma bela hipótese...!

Tirei a receita do livro da Dona Benta, mas não resisti e fiz umas inventices...Vamos lá: Meu 'como-se-faz'!

Misturo bem 3/4 xícara de farinha de trigo, 3 colheres (das de sopa) de manteiga e 3 colheres (sopa) de açúcar. A seguir, adiciono o leite, deixando o conjunto com aspecto homogêneo e sedoso. Corto em pedacinhos pequeninos o Queijo de Minas (1 pacote), ralo o queijo Parmesão ( a gosto) e acrescento-os à massa, com 3 a 4 colheres (sopa) de requeijão, sempre misturando um a um. Coloco uma pitada de sal, atenta ao sabor já acentuado do Parmesão. Se apreciar, Orégano é uma delícia nesta receita! Bato 4 claras em neve e junto ao todo, misturando com suavidade e demora. Uso apenas as claras: não uso as gemas para dar mais leveza aos pãezinhos. Coloco na mesma vasilha, peneirado, um pacotinho de Fermento Químico (ou uma colher das de sopa). Unto forminhas pequenas, com manteiga e farinha, e asso por uns 30 minutos em forno Médio (180ºC). Quando estão douradinhos em cima e 'passam' no teste do palito (palito sequinho), estão prontos!

Carpe!!!
Betina Mariante Cardoso

Tomate: Prosa e Poesia

Ainda conversando sobre o Veranico de Agosto, lembrei de contar que uma das saladas que mais gosto de oferecer é a minha com rúcula e tomatinhos assados. Esta receita é da genética da Chimia de Tomates, mas com outro destino final: almoços leves, por exemplo. Enquanto o preparo dos primeiros é assado no forno por uns 30 minutos, mantendo parte da estrutura 'anatômica' dos tomates, na chimia busco chegar a uma pasta homogênea, grená, com aspecto sóbrio e consistência robusta. 

Outra diferença: nos assados, usamos o tipo cereja cortados ao meio, enquanto na outra forma usamos 'Pomodori Pelati', em lata, e quatro tomates italianos, aproveitados integralmente. Por fim, as aplicações: nossa 'pastinha' cabe muito bem num fim de tarde, com alguns queijos e biscoitos  salgados, quitutes, boa música. A salada, por sua vez, acompanha muitíssimo bem uma carne grelhada, por exemplo, em que a força dos sabores se complementa. Pode-se dizer que o tomate assado é impetuoso, exprimindo intensidade e doçura numa proporção harmônica, e combina bem com várias idéias: das carnes às quiches.Há, ainda, um quê defumado no final, pela alquimia dos ingredientes no forno, em especial o melado. Bom, tenho esta impressão, que até hoje não sei explicar. 

Meu 'como-se-faz'? Preparo os tomates-cereja cortados ao meio, com a metade aberta para cima; ali, coloco o melado, cobrindo cada metade, raspas e suco de limão, pimenta calabresa em flocos. Pouquíssimo sal. Coloco no forno, em temperatura baixa, por uns 30 minutos; de quando em quando, verifico o ponto pela cor e consistência. Os tomatinhos ficam de um vermelho forte e escuro, fechado, e estão murchos e com alteração na forma inicial: ficam preguiçosos na forma. Pode-se optar por fazer no fogão, também, em fogo brando, verificando as mesmas modificações. Neste caso, o tempo médio é de 15 minutos. 

Quando prontos, jogo o conjunto por cima das folhas de rúcula e misturo com um garfo, apenas ligeiramente para não desmancharem-se os tomates. Sirvo com queijo Grana Padano ralado na hora, escolhido pelo sabor adocicado e confortável. 

A receita da Chimia de Tomates está no link:

Bom apetite!

Betina Mariante Cardoso

sábado, 18 de agosto de 2012

Veranico de Agosto


Num sábado quentinho como hoje, em pleno Veranico de Agosto, a sugestão é um almoço lúdico, em que formas e cores se entrelaçam para compor a alegria da mesa. Vá à Feira, escolha ingredientes frescos, abra as janelas...E crie!!!

Um ótimo final de semana!

Betina Mariante Cardoso

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O crocante acolhedor

Lockers decorados para a Festa Anual
 Contando um pouco mais de meu percurso em Battle Creek, iniciado em agosto de 1992. Num destes armários da fotografia,  os lockers da Escola, habitava uma caixa com muitas (1000?) caixinhas de M&Ms, cujo propósito era a arrecadação de verbas para uma viagem. Explico: tal oportunidade era oferecida aos alunos interessados na excursão a NY, no ano seguinte. Venderíamos as guloseimas até somarmos a quantia representada pelo número total de unidades, o que completava uma boa parte do valor necessário. E era uma perdição aquela quantidade gigantesca de delícias, ali, à espera, contando apenas com meu controle das vontades. 'Não posso comer os confetes: são minha viagem', eu dizia, em silêncio. Mas não adiantava, esquecia a expectativa do passeio e surrupiava, de mim mesma, três ou quatro caixinhas num dia. Por quê?

O período era mágico e, ao mesmo tempo, assustador. Havia encantos, como a caixa de confetes doces no 'Locker', o pote de Pasta de Amendoim na despensa, os Donuts no café da manhã, os Muffins à tarde, os Cookies, as Cheese Cakes e todas as maravilhas em sabores e formas. E havia a saudade, a partir de um certo ponto. Neste contraste, entre o que era prazeroso e o que era difícil, todos os dias, havia o crocante acolhedor dos 'M&Ms', em uma caixa que era minha e não era. Sentia-me fazendo algo que só a mim pertencia, mantinha uma informação silenciosa: abrir a 'reserva' para a verba da viagem. Teria o mesmo sabor comprar aquelas doçuras em algum lugar, só para mastigar por instantes? Acho que não. O gosto era contemplar minhas caixinhas, decidir abrí-las, testar meu controle, afrontar o plano de viagem a longo prazo em nome do desejo, a curtíssimo prazo.

 Confessava aos M&M´s o que me dava medo, o que me fazia sentir sozinha em um país distante. Eu tinha, sim, momentos bons, e muitos, de satisfação, de surpresas, de aprendizado, de circunstâncias únicas. Mas os confetes coloridos não eram reservados a estes momentos bons. Certa vez estava triste, num anoitecer chuvoso;  lembro-me de ter sido aconchegada, ali, pela mordida crocante dos confetes, pelo estalido abafado no contato de um com outro, pelas cores alegres que pulavam das caixinhas, quando a porta abria. Havia um cheiro, um gosto.  Os confetes acompanhavam minhas ruminações, pensamentos pra lá e pra cá, se revolvendo, num movimento repetido do mastigar das gostosuras. O que mais pulsava era a companhia que me faziam os docinhos, cheios de vida, permitindo que a tristeza fosse confortada em seguida. E, no dia à frente, chegasse o sol. 

Nos dias difíceis, esta mágica só os confetes sabiam fazer!



Decoração da Escola
para a Comemoração Anual.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Celebrando Julia Child



Hoje Julia Child estaria completando 100 anos de idade! Conheci a história de Julia através do filme Julie&Julia, que trouxe, de modo encantador, a intersecção das várias linguagens da cozinha pelos tempos: Livro, blog, cinema, TV...Acredito que muitos blogs culinários tenham nascido do exemplo de Julie Powell, representada no filme como a moça que procura reeditar as receitas de Julia em sua pequena cozinha de apartamento. O meu teve um início diferente: partiu da leitura de um capítulo sobre blogs de cozinha, no livro 'Will Write for Food', da autora americana Dianne Jacob.  A obra foi lançada em 2005 e reeditada em 2010 com este capítulo, tamanho o crescimento deste campo de expressão. Muito disso se deve ao fenômeno do filme; então, voltamos à Julia Child.
As publicações de Julia estão na lista de livros necessários na minha estante. Vendo seus vídeos no You Tube, lendo matérias sobre ela, acompanhando as postagens no Facebook sobre a celebração de 100 anos, lendo textos nos blogs sobre sua importância, percebo quanta riqueza de aptidões ela exercia em seu ofício. Quantas frases de incentivo às cozinheiras e aos cozinheiros de casa, em qualquer tempo!

Tive vontade de ler mais sobre Julia, saber de sua vida, seu percurso, para além do que o filme mostra. Vontade de saborear sua escrita nos livros. Vontade de tê-la conhecido, visto na TV, aprendido com ela. Um ícone de grande vigor e simpatia, daquelas pessoas que despertam alegria em quem vivencia as Artes Culinárias. Assim, estou montando sua página por aqui, para compartilhar a pesquisa sobre suas publicações, sua cozinha, sua identidade.

Meus sinceros parabéns à Julia Child, por estes 100 anos!

Betina Mariante Cardoso


terça-feira, 14 de agosto de 2012

Na Terra dos 'Kellog´s'

Abro meu caderno de receitas, e vejo umas folhas dobradas, trechos de experimentos soltos, recortes de revistas e jornais com dicas culinárias. Nada de brilhante, coisas que nem passei a limpo, escritas em folha branca, ou pautada, ou anotações em guardanapo. Começo a olhar, por uma curiosidade, o que deixei espalhado, e percebo que há vida nos rabiscos. Sinto, palpável, a emoção das receitas que se tornaram parte de minha história, com a minha letra ou com a letra de quem 'esteve ali', naquele papel.

E foi assim que encontrei a receita da Cheese Cake que me acompanha por tempos, numa folha branca dobrada em quatro, dividindo espaço com a anotação de outra receita que leva Cream Cheese. Minha caligrafia de 98. Me perguntei por que ainda guardo este registro, se até passei para o caderno. Algo de mágico há. Quem sabe a impressão de que o escrito casual, e em desalinho, é um bilhete de viagem que me transporta à lembrança do dia em que tomei nota, fui ao Super, realizei o feito pela primeira vez. Um bilhete de ida e volta, sim, pois aterriso de volta em seguida, neste 2012, mas  trago do rápido percurso a sensação viva que tive quando conheci esta receita.  Pois bem, era parte de minha busca pela 'Cheese Cake Ideal', que provei em Battle Creek, cidade de origem da fábrica Kellog´s , em Michigan, há 20 anos atrás. Viajei para esta cidade para o Programa de Intercâmbio, em Agosto de  1992.

Há que se considerar: foi lá que vivenciei a torta pela primeira vez, com sua massa crocante de biscoitos e manteiga, abraçando a suavidade do recheio de queijo cremoso. A dona da casa em que estive era exímia no preparo, e sabia, como ninguém, encontrar o ponto de harmonia no contraste entre o crocante e o macio. O contraste entre o rústico, na casquinha, e a elegância  encorpada, no creme. Havia um detalhe naquela receita, que nunca consegui reproduzir, após meu retorno. Não saía igual quando fazia, não encontrava sabor e texturas semelhantes, quando pedia pela 'Cheese Cake' no café onde estivesse. Pensei que poderia ser culpa dos ingredientes usados na versão original da senhora, ou das proporções que ela aplicava, ou das condições climáticas, ou do fato de ser minha primeira vivência deste doce, ou da sua aptidão para aquela receita. Sabe-se lá. A bem da verdade, considero que todos estes fatores poderiam influenciar, mas o elemento de maior peso, acredito, foi sentir aquele impacto da Cheese Cake num período muito particular da minha vida.Tudo pulsava de um modo próprio, com um cheiro, um gosto, uma luz particular.

Quando experimentamos um sabor novo, a meu ver, estamos de todo na degustação, e o que somos está no nosso modo de sentir a receita, com sentidos, emoções, cenários. Este conjunto todo fica registrado em nós, sob o código de um nome. Por exemplo, 'Cheese Cake'. Não há como encontrar o mesmo prazer: poderá ser um prazer maior, menor, mas nunca o mesmo. Porque já somos outros quando a cena se tornou memória. Quando lembramos de um sabor, somos também nós ali, dentro dele. A parte de nós que viveu a doçura, os contrastes, a mordida mansa da torta. 

A minha 'Cheese Cake' ideal era parte de minhas memórias, do exercício de vida que Battle Creek representou para mim. E, talvez por representar aquela vivência única na terra dos Kellog´s, tenha sido um emblema do período, para mim. Até que eu percebesse que a 'Cheese Cake Ideal' não estaria apenas naquele lugar, mas naquele lugar, num tempo, numa dada condição atmosférica, num estado de espírito receptivo às novidades, como ocorre nas viagens, e assim por diante. Em última instância, era uma busca de quem eu fui, naquele período.

Percebi que 'A busca pela Cheese Cake Ideal' era uma busca por mim. E decidi colocar em prática uma receita que encontrei em alguma revista culinária, livre de expectativas e de lembranças. Arranquei a página, tomei nota dos ingredientes e dos passos, numa folha que guardava na bolsa, e tornei esta minha receita possível. 

Decidi não procurar a repetição daquele ideal, e sim a realização desta nova receita, partilhá-la com os amigos e com a família. Me senti livre, deixando o ideal onde ele habita: na fantasia, na memória. Longe do real. Me senti livre para colocar em prática a receita que eu escolhi, e que uso até hoje. Claro, com uma Serendipity ali, outra acolá...

E foi deste percurso que me lembrei ao abrir a folha de papel, dobrada dentro do caderno.

Em Battle Creek, Michigan, 1992


Betina Mariante Cardoso





sábado, 11 de agosto de 2012

Fenômeno Paella: Homenagem ao Dia dos Pais!!!


 Das especialidades culinárias do Pai, que são várias, eu destaco a Paella: tem um efeito transbordante na alma dos comensais. Bom, trata-se de uma vivência completa de cozinha a realização do prato. Os convidados acompanham o preparo, observam as etapas, deixam-se envolver pelo perfume de cada ingrediente na receita. 

Comer é uma parte da alquimia, apenas; é o desenvolvimento de todo o processo que desperta o viço do sabor em nós. Tendo assistido ao desenrolar da Paella, às cores vivas dos pimentões, das ervilhas, do Azafran;  tendo seguido, pelo faro, a essência robusta formada pela química entre os compostos, o sujeito se vê em situação de enlevo. Dali em diante, torna-se ingrediente da cena, também, como os camarões, o arroz, os polvos e lulas. A panela tem vida própria: ela pulsa! Existe, ali, a entrega do cozinheiro ao ofício, uma entrega absoluta e recíproca entre ele sua criatura. Estão em uníssono, isto sim. E o sabor é o resultado final, adentrando a alma de quem experimenta. Há sempre o estímulo aos cinco sentidos quando falamos em culinária-alguns com mais, outros com menos força-, mas aqui se sobressai o conjunto da obra, ultrapassando o comer. 

Acompanhar este feito é um prazer da vida toda, algo que conheço com tanta intimidade que, quando o cheiro se avizinha, traz à tona porções da memória física, não apenas da memória cognitiva. A pele se lembra, nos poros, do calor saindo da panela; o nariz lembra; a mordida reconhece o ponto do arroz; os olhos recebem as combinações de cores como se vissem, depois de tempos, uma paisagem guardada lá no fundo da gente. Há a música dos elementos que se tornam parte do conjunto, formando um assobio manso na atmosfera.  E há algo que ultrapassa a exploração sensorial: a identidade culinária. O Pai é parte essencial do gosto da Paella que faz, e não só por ser exímio na execução. Ele é parte da receita, a receita é parte dele. Quando convida para uma Paella, sabemos que será um evento singular: ainda que seu 'como-se-faz' seja pessoal e intransferível, todo episódio é único, pleno de nova existência.

Há também o churrasco, mas este merece um post exclusivo. Devo confessar: existe alguma mágica na Paella do Pai, alguma mágica  carimbada nas minhas memórias mais antigas de cozinha, e que está nos meus registros primitivos de prazer culinário. Arrisco dizer que há um componente 'genético' entre ele e sua paella: ela tem o temperamento solar e agregador do cozinheiro.

E isto faz toda a diferença!!!!

Então, nesta prosa de hoje, faço minha homenagem ao Dia dos Pais!

Betina Mariante Cardoso